Qual é a sua percepção sobre a descentralização do bitcoin e das criptomoedas? Ela diminuiu ou aumentou? É isso que veremos a seguir.
Muito se fala sobre a ameaça da descentralização do bitcoin e das criptomoedas com o avanço da agenda dos bancos centrais e das suas moedas digitais, as CBDCs, na sigla em inglês. Afirma-se que essa descentralização vem perdendo espaço. Acredito que os fatos e dados apontam para o caminho contrário, pois o que se nota nos dias recentes é que essa característica está mais forte do que em um passado não muito distante.
Antes, a descentralização se resumia a apenas discurso e debate, mas agora estamos vendo e testando a sua realidade na prática. Há alguns anos atrás, poucos atores do mercado e os maiores mineradores concentravam o poder da rede e coordenavam a venda do bitcoin. Faziam isso com um long squeeze . Isso quer dizer queda abrupta no preço de um ativo, causada pela necessidade de venda de posições compradas, long. Portanto, uma forte venda, levando a uma volatilidade alta e forte pressão no preço, com quedas de 20%, 30%, e até 50% em poucos dias.
Mineração na China
A mineração era muito concentrada na China, fortemente montada em cima de fontes geradoras de energia poluidora, como o carvão, baixa tecnologia de mineração (alto gasto energético) e muita especulação de preço (como vimos anteriormente). Isso dava a possibilidade relevante do governo de chinês assumir uma fatia do hashrate e ter participação na rede por ser um governo centralizador e autoritário.
Dado que em 2021 o governo de Xi Jinping tornou as operações de mineração proibidas na China, ocorreu uma redistribuição de poder de processamento do bitcoin para outros lugares.
Com a movimentação de empresas de mineração para outros países, a concentração do poder de processamento se tornou mais difícil e a mineração ficou mais distribuída tanto em empresas concorrentes, quanto em países. Sendo assim, vendo novas instituições e grandes players participando também da fatia de distribuição do bitcoin, é um sinal de avanço na ‘descentralização’, não o contrário.
Adoção do bitcoin
A adoção do bitcoin nunca esteve tão forte, com sua aceitação por redes famosas como a Boali, no Brasil aceitando via Lightning Network. Há países entrando com o bitcoin como moeda fiduciária, caso de El Salvador, assim como a MicroStrategy, uma empresa listada na Nasdaq fazendo operações de crédito em mercado tradicional para comprar bitcoin e fazer hedge contra moedas fiduciárias.
Bitcoin nunca esteve com um hashrate tão alto, como mostra o gráfico abaixo da Glassnode, com tanta energia limpa fazendo parte do PoW – cerca de 50% da energia usada no processamento é renovável. Os endereços nunca estiveram tão distribuídos e nunca houve tanta empresa participante do ecossistema. O que é isso se não descentralização?
Reconcentração e distribuição de riqueza
Dentro do ecossistema do Bitcoin, eu chamaria a próxima etapa de “reconcentração” e “distribuição da riqueza”.
Percebendo o grande potencial do bitcoin, países como El Salvador, Estônia, Argentina, Suiça, Brasil e outros com forte ecossistema, e também empresas como MicroStrategy, BlackRock, Binance, Coinbase, OKX, Grayscale Investments, Fidelity Investments, estão fazendo um grande caixa com bitcoin e alocando a criptomoeda como hedge (proteção) ante a moedas fiduciárias e crises financeiras do mercado tradicional.
No passado, os bitcoins estavam concentrados na mão de grandes mineradores e estes mesmos mineradores concentravam as exchanges onde ocorre compra e venda de criptoativos. Hoje, temos um grande número de empresas que são exchanges, assim como um grande número de mineradores, e a terceira parte dessa equação que pouco é abordada são os desenvolvedores, os devs, do ecossistema do Bitcoin.
Portanto, deixem-me aqui afirmar algo de minha concepção em relação à descentralização do bitcoin: o aumento de posições por empresas, aumento de serviços de infraestrutura (B2B) e outras fontes de serviço, na verdade, vão consolidar o bitcoin, aumentar a sua utilização, distribuição e torná-lo ainda mais ‘descentralizado’.
Outras criptomoedas
E em relação a outras criptomoedas?
Em se tratando de outros ecossistemas de criptoativos, a análise se torna mais densa, pois dependeremos de qual cripto estamos abordando e de aspectos como qual é a realidade específica daquela cripto, quantidade de nodes, participantes, concentração de endereços e concentração financeira.
Mas de forma geral, ainda que cada blockchain necessite de uma análise específica, o que podemos ver é uma maior distribuição de projetos e diminuição da concentração de desenvolvimento em cima do bitcoin e, principalmente, ethereum.
Há poucos anos, o ecossistema de cripto se concentrava em outros projetos derivados do bitcoin, como litecoin, dogecoin, zcash, dash e Monero e do ethereum, como augur, polygon, golem e aragon. Já hoje, vemos uma distribuição tanto em redes mais focadas em contratos inteligentes, como aqueles projetos de mais tempo que também trabalham outras utilizações, como Ripple, Chainlink, tether e USDC.
Sendo assim, embora as agendas institucionais e de grandes participantes do mercado tenha avançado em direção a uma maior concentração e centralização das suas operações, eles estão partindo para uma via de construção de suas próprias soluções, blockchains privadas e outros métodos, mas não de interferência direta nas decisões tomadas nas blockchains públicas.
Embora seja notável o avanço de algumas agendas restritivas, como a da Europa, Bolívia, há disputa internacional de mercado pelos países. Há aqueles que percebem na indústria de criptoativos um avanço e pretendem investir numa legislação mais branda (caso El Salvador), aqueles que veem mais como uma ameaça a soberania da moeda e vão restringir as criptos (caso da China e União Europeia), aqueles que já fizeram uma legislação, mas ainda não implementaram na íntegra (Brasil), ou ainda aqueles países que nem mesmo escolheram o melhor caminho a seguir (EUA).
Dessa maneira, concluo que é notório e factual o avanço na descentralização do bitcoin e do ethereum, havendo ressalvas para o restante das criptos e tendo que ser analisado pontualmente. Ainda assim, é totalmente determinístico afirmar que o cenário é mais favorável à descentralização do que há cinco anos atrás.
*Vinícius Córdova é líder e especialista na indústria de criptoativos em desenvolvimento de novos negócios, parcerias e produtos, e integrações B2B.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





