O bloco dos BRICS está avançando em mecanismos para liquidar pagamentos transfronteiriços diretamente em moedas locais, sem precisar usar o dólar como moeda intermediária. O movimento ganhou força em 2025 por uma combinação de sanções, volatilidade cambial e busca por rotas financeiras mais resilientes, e aparece como tendência no BRICS Economic Bulletin 2025, coordenado pelo Banco Central do Brasil (BCB). Fincatch+1
O que muda, na prática
Liquidação em moeda local significa que importadores e exportadores conseguem fechar uma operação, pagar e receber com menos etapas de conversão cambial. Em vez de “entrar” no dólar no meio do caminho, a transação pode ser estruturada com pares diretos entre moedas dos países envolvidos, com apoio de bancos, acordos bilaterais, contas dedicadas e infraestrutura de mensagens e compensação.
O boletim do BCB descreve que, dentro do bloco, há iniciativas e instrumentos que apontam nessa direção, como:
Maior uso de moedas dos BRICS em liquidações comerciais, relatado especialmente no caso da Rússia. Banco Central do Brasil
Canais alternativos de liquidação ganhando relevância em cenários de restrição internacional, como observado na perspectiva do Irã. Banco Central do Brasil
Arranjos formais para comércio em moeda local, com o exemplo do sistema indiano de liquidação em moeda local (LCSS) e estruturas associadas. Banco Central do Brasil
Integração e uso de sistemas de mensageria internos, citando CIPS (China) e SPFS (Rússia) como referências de infraestrutura. Banco Central do Brasil
Por que o tema entrou no radar em 2025
O BRICS Economic Bulletin 2025 aponta fatores globais que pressionam fluxos e decisões financeiras, como mudanças na política monetária dos EUA, tensões geopolíticas, oscilações de commodities e restrições relacionadas a sanções. Nesse contexto, ampliar o uso de moedas locais e diversificar canais de liquidação vira uma medida de eficiência, mas também de gestão de risco. Banco Central do Brasil
No caso do Brasil, a discussão caminha mais pela via operacional e de infraestrutura do que por uma “moeda única”. Reportagens ao longo de 2025 indicaram que a presidência brasileira do BRICS não priorizaria a criação de uma moeda comum, concentrando a agenda em reduzir fricções de pagamento e, com isso, diminuir dependência do dólar em partes do comércio. Reuters
Benefícios e desafios para empresas
Possíveis ganhos
Menos etapas de conversão e, em alguns casos, menor custo total de câmbio e liquidação.
Redução de risco de “travamento” operacional quando há restrições bancárias, sanções ou interrupções de rotas tradicionais.
Mais alternativas para negociar prazo, moeda de faturamento e condições comerciais.
Custos e complexidades
Liquidez desigual entre moedas, spreads maiores em determinados pares e necessidade de instrumentos de hedge mais específicos.
Ajustes em ERP, tesouraria, conciliação, documentação de comércio exterior e compliance.
Integração tecnológica com bancos e plataformas que suportem essas rotas, inclusive requisitos de KYC e rastreabilidade de pagamentos.
Oportunidade direta para o Brasil
O boletim registra que o Brasil reportou aumento relevante no comércio com o bloco desde 2015, o que ajuda a explicar por que o tema importa para empresas brasileiras com importação, exportação e cadeias dependentes de China, Emirados e outros parceiros. Banco Central do Brasil
Na camada institucional, acordos de liquidez também entram como peça complementar, como o anúncio de swap cambial entre o Banco Central do Brasil e o banco central chinês em 2025, que tende a reforçar cooperação financeira em momentos de estresse. ReutersA estratégia de comunidade, na visão do nosso especialista em crescimento
Em vez de tratar o tema como “guerra de moedas”, nossa proposta de crescimento de comunidade é transformar o assunto em utilidade prática, com uma trilha curta e recorrente que ajude a audiência a entender, decidir e agir:
Série “Do pedido ao pagamento”
Conteúdos semanais mostrando o caminho completo de uma operação real (cotação, contrato, moeda, liquidação, conciliação), sempre com um checklist de riscos e erros comuns.Radar de infraestrutura, sem hype
Um quadro fixo explicando o que muda quando entram sistemas de mensageria, contas dedicadas, acordos bilaterais e stablecoins corporativas, conectando tecnologia, compliance e operação.Playbooks para empresas
Modelos simples para o público aplicar: perguntas para o banco, critérios para escolher moeda de faturamento, quando faz sentido travar câmbio e como precificar risco cambial na margem.Comunidade como rede de inteligência
Ativar debates guiados com profissionais de comércio exterior, tesouraria e tecnologia para coletar casos, padrões e alertas. O objetivo é fazer a comunidade “virar ferramenta”, não só audiência.O avanço das liquidações em moedas locais no BRICS aponta para um cenário de mais opções e mais complexidade ao mesmo tempo. Para empresas, a vantagem competitiva pode vir menos de uma aposta geopolítica e mais de preparo operacional: processos, compliance e tecnologia para operar múltiplas rotas de pagamento com segurança. E, para a comunidade, a oportunidade é clara: quem explicar com clareza e utilidade o “como funciona” vai liderar a conversa, independentemente de quanto o dólar ainda siga dominante no comércio global.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





