Mercados emergentes já representam 77% da base de usuários da Binance em 2026, segundo relatório da Binance Research citado pelo CoinDesk. O dado reforça o uso de corretoras cripto como infraestrutura de poupança, pagamentos e acesso a stablecoins onde o sistema bancário ainda deixa lacunas.
Mercados emergentes já concentram 77% dos usuários da Binance em 2026, acima dos 49% registrados em 2020, segundo relatório da Binance Research divulgado neste sábado (9) e repercutido pelo CoinDesk. A leitura da empresa é clara: em várias economias, as corretoras cripto estão deixando de ser apenas ambientes de trade e passando a funcionar como aplicativos bancários.
O ponto central é o uso prático. De acordo com a Binance, usuários desses países recorrem à plataforma para poupança, pagamentos, remessas e acesso a investimentos — especialmente em regiões onde crédito, contas remuneradas e serviços digitais ainda são limitados. O tema conversa diretamente com a expansão cripto na região: como o CriptoBR mostrou em matéria sobre o avanço da América Latina em usuários cripto, o Brasil segue como um dos mercados mais relevantes desse ciclo.
Stablecoins aparecem como peça central
O relatório aponta que 36% dos usuários de mercados emergentes com saldo mínimo de US$ 10 mantêm pelo menos metade do portfólio em stablecoins. Globalmente, esse recorte chega a 28%, contra apenas 4% em 2020. Para a Binance Research, esse comportamento é compatível com um uso mais voltado à reserva de valor e liquidez do que à especulação pura.
A tese ganha força quando se olha para custos de transferência. A Binance afirma que redes de alta performance podem liquidar operações quase instantaneamente e com custos próximos de US$ 0,0001, enquanto transações internacionais via SWIFT podem partir de valores bem mais altos. A comparação ajuda a explicar por que stablecoins têm ganhado espaço em remessas, comércio internacional e proteção contra moedas locais mais frágeis.
No Brasil, esse movimento também já apareceu em dados e negócios recentes. O CriptoBR acompanhou, por exemplo, como a Tether ampliou sua presença na América Latina com investimento na Belo e como a Stripe dobrou sua aposta em blockchain e stablecoins. A diferença agora é que a Binance tenta organizar esses sinais em uma narrativa global de inclusão financeira.
Acesso financeiro, mas com riscos no radar
O relatório também cita dados do Banco Mundial para contextualizar a oportunidade: cerca de 1,3 bilhão de adultos ainda não têm acesso a serviços financeiros, enquanto centenas de milhões de pessoas sem conta bancária já possuem telefone celular. Essa combinação ajuda a explicar por que carteiras digitais e exchanges conseguem avançar mais rápido que bancos tradicionais em alguns mercados.
Mas a adoção não vem sem alertas. Stablecoins podem reduzir custos e ampliar acesso, porém também levantam discussões sobre soberania monetária, supervisão, riscos de liquidez e dependência de emissores privados. Instituições como FMI, Moody’s e reguladores nacionais vêm acompanhando esse crescimento justamente porque a fronteira entre infraestrutura financeira alternativa e sistema bancário paralelo está ficando menos nítida.
Para o leitor brasileiro, o sinal mais importante é que a próxima fase de adoção cripto pode não ser definida apenas por preço do Bitcoin ou por ETFs nos Estados Unidos. Em mercados emergentes, o caso de uso mais forte pode estar em algo mais simples: guardar valor, receber dinheiro, pagar contas e acessar produtos financeiros que o sistema tradicional ainda não entrega bem.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





