O SBI Group prepara ETFs de Bitcoin e Ether e fundos multiativos de cripto no Japão, enquanto Rakuten e outras corretoras avaliam produtos parecidos. O movimento depende de reformas regulatórias e fiscais, mas pode abrir uma rota familiar para a poupança das famílias japonesas entrar em ativos digitais.
O SBI Group está montando a estrutura para lançar produtos de investimento ligados a Bitcoin, Ether e cestas de criptoativos no Japão, caso as mudanças regulatórias e tributárias avancem no país. Segundo reportagem da CryptoSlate republicada pelo CryptoRank, o plano inclui ETFs focados em Bitcoin e Ethereum, além de trusts com múltiplos ativos digitais.
A notícia importa porque o Japão reúne três peças que podem mudar a escala da demanda regulada por cripto na Ásia: uma base enorme de poupança doméstica, grandes corretoras de varejo e uma agenda regulatória que busca tratar cripto de forma mais parecida com produtos financeiros tradicionais. Na prática, um ETF local poderia levar exposição a Bitcoin e Ether para contas de investimento já usadas por milhões de famílias, sem exigir abertura de conta em exchange ou autocustódia.
SBI já tem parceria com Franklin Templeton
O plano do SBI não parte do zero. A empresa tem uma joint venture com a Franklin Templeton e definiu uma meta de US$ 31,5 bilhões em ativos sob gestão em até três anos após o lançamento dos produtos, segundo a mesma reportagem. O SBI Global Asset Management Group tinha mais de US$ 75,5 bilhões em AUM no fim de março de 2026, enquanto a operação mais ampla de valores mobiliários do grupo superava US$ 415 bilhões.
Esse tamanho de distribuição é o ponto central. No mercado americano, os ETFs spot de Bitcoin criaram uma ponte entre cripto e gestoras, consultores financeiros e investidores institucionais. No Japão, a ponte seria mais voltada para corretoras de varejo, contas de investimento em iene e carteiras conservadoras que já compram fundos de ações e renda fixa.
Como o CriptoBR mostrou recentemente, a disputa por produtos de ETF segue ativa mesmo em ciclos de recuo e ajuste. A retirada dos ETFs de Bitcoin da Truth Social da fila da SEC mostrou como o mercado ficou mais seletivo, enquanto a decisão de Harvard de zerar ETF de Ether e reduzir Bitcoin reforçou que o apetite institucional pode oscilar com o cenário macro.
Rakuten e outras corretoras também observam o mercado
A movimentação não se limita ao SBI. A Grafa, citando uma pesquisa da Nikkei Asia, informou que SBI Securities e Rakuten Securities trabalham em trusts de cripto que dariam exposição a Bitcoin e Ethereum por meio de contas tradicionais de corretagem. Outras casas japonesas, incluindo Nomura, Daiwa, SMBC Nikko, Mizuho Securities e Mitsubishi UFJ Morgan Stanley Securities, também demonstraram interesse quando o marco regulatório estiver concluído.
O pano de fundo é a reforma japonesa para enquadrar criptoativos como produtos financeiros sob a Financial Instruments and Exchange Act. A proposta também reduziria a tributação sobre ganhos com cripto para 20%, contra um teto atual que pode chegar a 55%. Essa mudança é decisiva porque aproxima o tratamento fiscal dos ativos digitais do regime aplicado a ações, diminuindo uma das maiores barreiras para investidores comuns.
A Agência de Serviços Financeiros do Japão ainda precisa avançar em regras para estrutura de fundos, custódia, benchmarks, formação de mercado e eventuais critérios de elegibilidade em contas com benefícios fiscais. Sem isso, os produtos podem até nascer, mas com alcance limitado a investidores já familiarizados com cripto.
Por que o mercado olha para a poupança japonesa
Dados citados pela reportagem da CryptoSlate indicam que famílias japonesas tinham cerca de US$ 14,8 trilhões em ativos financeiros no fim de 2025, com quase metade em caixa e depósitos. O programa NISA, usado para estimular investimentos de longo prazo, já somava 28,26 milhões de contas e US$ 447 bilhões em compras no fim de 2025.
Mesmo uma alocação pequena teria impacto relevante. A meta de US$ 31,5 bilhões do SBI equivaleria a apenas 0,21% dos ativos financeiros das famílias japonesas. Para Bitcoin e Ether, isso criaria uma segunda janela importante de fluxo regulado, agora em horário asiático e em moeda local.
O ponto de cautela é que nada disso está aprovado. O cenário otimista depende de reforma tributária, autorização para ETFs e trusts, infraestrutura de custódia e aceitação por plataformas tradicionais. Se a regulação atrasar ou excluir cripto de contas favorecidas, os produtos podem ficar restritos a um público menor.
Ainda assim, o movimento mostra que a próxima fase dos ETFs cripto pode não ser apenas uma história dos Estados Unidos. Depois da volatilidade recente nos fluxos de ETFs de Bitcoin, o Japão aparece como um potencial canal de demanda estrutural, menos dependente de traders de curto prazo e mais ligado à migração gradual da poupança tradicional para produtos digitais regulados.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





