A Circle, emissora da stablecoin USDC, entrou oficialmente com pedido de IPO junto à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC), marcando uma tentativa ousada de se tornar a primeira grande empresa de stablecoins a estrear na bolsa em meio a um cenário econômico conturbado e um setor ainda sem regras definidas.
O movimento reacende expectativas no mercado cripto, mas também levanta dúvidas. Analistas apontam que a margem de lucro da empresa vem caindo, enquanto os custos operacionais seguem altos. Ainda assim, a Circle aposta na demanda crescente por dólares tokenizados e infraestrutura de pagamentos digitais.
A estreia acontece poucos meses após a reeleição de Donald Trump, que reacendeu o otimismo entre empresas de ativos digitais ao prometer tornar os EUA a capital global das criptomoedas. No entanto, o recente anúncio de tarifas comerciais sobre cerca de 90 países, incluindo China e União Europeia, jogou um balde de água fria nos mercados. O S&P 500 caiu 11% no ano, enquanto o Nasdaq recuou 17% — um dos piores trimestres recentes.
Apesar do momento instável, a Circle resolveu não esperar por “céu de brigadeiro”. Após anos de idas e vindas com reguladores, a empresa finalmente registrou seu S-1, primeiro passo para a listagem em bolsa. O gesto foi visto como um sinal de confiança por parte da empresa, mas analistas alertam que o momento é delicado.
“A Circle deve conseguir precificar e captar capital, mas não será fácil”, avaliou David Pakman, sócio da CoinFund. “O ideal seria uma abertura de capital em um mercado mais otimista.”
As finanças da Circle não ajudam. O pedido de IPO revelou margens apertadas, gastos elevados e dependência de juros, o que pode afastar investidores em busca de negócios mais previsíveis.
“A Circle ainda é vista como uma empresa cripto tradicional — altamente cíclica e pouco diversificada. Se conseguir se posicionar como uma rede de pagamentos com estrutura sólida, o mercado pode responder melhor”, analisou Lorenzo Valente, da ARK Invest.
O valuation estimado da Circle varia entre US$ 4 e 6 bilhões, algo entre 13 e 20 vezes o EBITDA ajustado. Embora isso a alinhe com empresas como a Coinbase e a Block, o valor não é considerado uma pechincha diante da recente queda na lucratividade.
Outro desafio está na própria estrutura da empresa: parcerias de distribuição caras, dúvidas sobre o modelo de compartilhamento de receita, e incertezas sobre o crescimento da Base, blockchain da Coinbase que usa o USDC como base monetária.
Ainda assim, a Circle parece disposta a liderar a retomada dos IPOs no universo cripto. Empresas como Kraken, Gemini, Blockchain.com e BitGo também estariam se preparando para seguir o mesmo caminho, mas a maioria deve aguardar por regras mais claras e estabilidade nos mercados.
De acordo com a consultoria Architect Partners, é mais provável que a maior parte das aberturas de capital aconteça no segundo semestre de 2025, quando a regulação do setor estiver mais bem definida.
No pano de fundo, o governo dos EUA também joga seu peso: mais de US$ 6 trilhões em T-Bills devem ser renovados este ano, e o Tesouro vê as stablecoins como possível canal para novos compradores. Um sinal de que, apesar da incerteza, a tokenização do dólar pode ganhar cada vez mais espaço no sistema financeiro global.





