Fundos cripto registraram US$ 1,07 bilhão em saídas na última semana, encerrando uma sequência de seis semanas positivas. Bitcoin e Ethereum concentraram os resgates, enquanto XRP e Solana ainda atraíram capital em meio ao avanço do Clarity Act nos EUA.
Os produtos de investimento em ativos digitais tiveram US$ 1,07 bilhão em saídas líquidas na semana encerrada em 18 de maio, segundo o relatório semanal da CoinShares. Foi a primeira semana negativa em sete e a terceira maior retirada semanal de 2026, com o movimento concentrado principalmente em Bitcoin e Ethereum.
A leitura importa porque mostra uma mudança rápida no apetite institucional por risco. A CoinShares atribuiu o resgate ao ambiente de aversão ligado às tensões envolvendo o Irã, que também pressionaram ativos tradicionais e reacenderam preocupações com energia e inflação nos Estados Unidos. O movimento ocorre poucos dias depois de o mercado já sentir o impacto de novas discussões geopolíticas envolvendo o Oriente Médio, tema que o CriptoBR acompanhou na matéria sobre seguro no Estreito de Hormuz pago em Bitcoin.
Bitcoin lidera resgates e Ethereum tem pior semana desde janeiro
O Bitcoin concentrou a maior parte da saída, com US$ 982 milhões deixando produtos ligados ao ativo. Mesmo assim, os fluxos acumulados no ano seguem positivos em US$ 3,9 bilhões, o que indica uma correção de posicionamento, não necessariamente abandono da tese institucional.
O Ethereum também sofreu. Os produtos de ETH registraram US$ 249 milhões em resgates, a maior saída semanal desde 30 de janeiro. A queda reforça a sensibilidade do segundo maior criptoativo a momentos de desalavancagem, especialmente quando investidores reduzem exposição em fundos listados e produtos de fácil resgate.
Os Estados Unidos explicaram praticamente toda a pressão: fundos sediados no país tiveram US$ 1,14 bilhão em saídas. Em sentido contrário, alguns mercados europeus ainda registraram entradas modestas, com Suíça, Alemanha e Holanda no campo positivo, além do Canadá.
Essa diferença regional ajuda a separar duas leituras. De um lado, há uma saída forte de produtos americanos em um momento de risco macro. De outro, a demanda fora dos EUA não desapareceu. Para investidores brasileiros, o sinal é que o fluxo institucional continua sendo um termômetro relevante para preço, liquidez e narrativa, principalmente depois de meses em que ETFs dominaram parte da conversa sobre Bitcoin. O CriptoBR também mostrou esse pano de fundo em ETFs de Bitcoin perdem US$ 635 mi em um dia.
Altcoins resistem e Clarity Act ajuda o humor seletivo
Apesar da saída agregada, nem todo o mercado foi vendido da mesma forma. XRP atraiu US$ 67,6 milhões e Solana recebeu US$ 55,1 milhões, ambos com entradas acima das semanas anteriores. Toncoin, Sui, Ondo, Chainlink e Dogecoin também apareceram no relatório com fluxo positivo.
Segundo a CoinShares, parte desse comportamento pode estar ligada ao avanço do Clarity Act, projeto que busca dar mais clareza à estrutura regulatória de criptoativos nos Estados Unidos. A proposta avançou no Comitê Bancário do Senado na semana passada, embora ainda enfrente debates políticos sobre regras de ética e conflitos de interesse.
Esse detalhe é importante: o mercado não está apenas fugindo de risco, mas escolhendo onde ainda quer manter exposição. Em vez de um movimento uniforme contra cripto, os dados sugerem rotação. Bitcoin e Ethereum sofreram por serem os ativos mais líquidos e mais usados em produtos institucionais, enquanto algumas altcoins foram beneficiadas por narrativas específicas e expectativa regulatória.
O avanço do debate regulatório nos EUA já vinha aparecendo como fator de suporte para o setor. Na semana passada, o CriptoBR destacou que o Clarity Act avançou no Senado e mira regra cripto nos EUA, um passo visto por parte da indústria como tentativa de reduzir a incerteza jurídica que marcou os últimos anos.
O que observar agora
O próximo teste será saber se a saída de US$ 1,07 bilhão foi um ajuste pontual ou o início de uma fase mais defensiva. Se as tensões geopolíticas continuarem pressionando petróleo, inflação e juros, fundos cripto podem seguir vulneráveis, principalmente os ligados a Bitcoin e Ethereum.
Por outro lado, entradas em XRP, Solana e outros ativos mostram que ainda existe capital disposto a assumir risco quando há tese específica. Para o investidor, a mensagem é menos sobre pânico e mais sobre seletividade: em semanas de estresse, o fluxo institucional tende a revelar quais narrativas estão sendo reduzidas e quais ainda conseguem atrair dinheiro novo.
Até agora, o dado da CoinShares aponta para um mercado dividido. Bitcoin e Ethereum absorveram o choque macro, mas a busca por exposição em altcoins não sumiu. A diferença entre esses dois movimentos deve guiar a leitura dos próximos dias.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





