A FCA abriu consulta para permitir que certos fundos autorizados do Reino Unido mantenham até 10% do patrimônio em cripto ETNs. A proposta não libera exposição ampla a cripto, mas sinaliza uma tentativa de aproximar produtos regulados da demanda de investidores de varejo.
A Financial Conduct Authority (FCA), reguladora financeira do Reino Unido, propôs permitir que certos fundos autorizados tenham exposição limitada a criptoativos por meio de cripto exchange-traded notes, os cETNs. A mudança colocaria um teto de 10% do patrimônio do fundo para esse tipo de ativo e ainda depende de consulta pública.
A proposta foi incluída no documento trimestral CP26/17 da FCA, publicado em 5 de junho, com prazo para comentários até 13 de julho de 2026. Segundo a reguladora, o objetivo é permitir que fundos permaneçam alinhados à demanda dos investidores, sem abrir mão de restrições conservadoras para produtos vendidos ao varejo.
Limite mira fundos autorizados, não compra direta de cripto
O ponto central da consulta é permitir que alguns fundos UCITS e certos fundos não UCITS tenham exposição a cETNs, desde que isso esteja de acordo com os objetivos divulgados e com o perfil de risco do produto. Na prática, o investidor não compraria Bitcoin, Ether ou outro ativo diretamente; a exposição viria por produtos negociados em bolsa que acompanham criptoativos.
De acordo com a cobertura do Cointelegraph, a FCA também avalia impedir que fundos voltados a ativos de longo prazo, como imóveis, mantenham cETNs se a exposição não fizer sentido para a estratégia declarada. Esse detalhe é importante porque indica que o regulador quer liberar acesso de forma segmentada, e não transformar qualquer fundo de varejo em veículo cripto.
O debate ocorre em um momento em que outros mercados vêm ajustando regras para produtos cripto listados. O Japão, por exemplo, também discute caminhos para produtos ligados a Bitcoin e Ether, como mostrou o CriptoBR na matéria sobre ETFs cripto e stablecoin em iene. Nos EUA, a volatilidade dos fluxos segue relevante, como visto quando ETFs de Bitcoin e Ether encerraram uma sequência de saques.
Por que a proposta importa para o mercado
A decisão não muda o risco dos criptoativos, mas pode mudar a forma como investidores acessam esse risco. Em vez de depender de corretoras cripto, carteiras próprias ou plataformas offshore, parte da exposição poderia entrar em produtos regulados, com regras de governança, divulgação e adequação ao perfil do fundo.
Ao mesmo tempo, o teto de 10% mostra que a FCA ainda vê cripto como uma classe especulativa. A consulta afirma que a limitação serviria como uma troca: permitir a comercialização a consumidores de varejo, mas com restrições conservadoras sobre o tamanho da exposição. Para gestoras, isso cria uma janela de produto. Para investidores, reduz parte da fricção de acesso, mas não elimina o risco de preço, liquidez e estrutura dos cETNs.
O movimento também conversa com outras frentes regulatórias no Reino Unido. A FCA e o Banco da Inglaterra vêm consultando o mercado sobre regras para stablecoins, custódia, staking e negociação de criptoativos. Essa agenda coloca Londres na disputa para continuar relevante em ativos digitais, sem adotar uma liberação ampla e imediata.
Consulta termina em julho
O prazo para contribuições aos capítulos 2 a 7 do documento vai até 13 de julho de 2026. Depois disso, a FCA pode ajustar a proposta antes de transformar as mudanças em regra final.
Para o investidor brasileiro, o tema importa menos pelo acesso direto aos fundos do Reino Unido e mais pelo sinal regulatório. Se grandes jurisdições passam a aceitar exposições pequenas e controladas em fundos tradicionais, a discussão sobre cripto deixa de ficar restrita ao universo das corretoras e avança para a prateleira de produtos financeiros regulados. Esse mesmo movimento ajuda a explicar por que bancos e gestoras seguem testando trilhos tokenizados e alternativas às stablecoins, como no caso da rede tokenizada preparada por bancos dos EUA.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





