Dados da Nansen citados pelo CoinDesk indicam que compradores do memecoin TRUMP acumulam US$ 3,81 bilhões em perdas, enquanto ganhos ficaram concentrados em uma minoria de entradas iniciais. O caso reforça o risco de tokens políticos em um mercado ainda pressionado por queda de preços e debate regulatório nos EUA.
Compradores do memecoin TRUMP acumulam uma perda combinada de US$ 3,81 bilhões desde o lançamento do token em janeiro de 2025, segundo dados da Nansen divulgados pelo CoinDesk neste sábado (4). O levantamento aponta que 988.905 das 1,48 milhão de carteiras que compraram o ativo estão no prejuízo, enquanto um grupo menor de 492.285 carteiras concentra US$ 4,04 bilhões em ganhos.
O dado chama atenção porque chega poucos dias depois de novas divulgações financeiras mostrarem que Donald Trump obteve mais de US$ 1,4 bilhão em receitas ligadas a cripto em 2025. Para o investidor de varejo, a leitura principal é menos partidária e mais estrutural: memecoins com narrativa política podem concentrar assimetria extrema entre quem entra nos primeiros minutos e quem compra depois da explosão inicial.
Lucro ficou concentrado nos primeiros compradores
De acordo com o CoinDesk, os compradores que entraram nas primeiras horas, quando o TRUMP ainda era negociado abaixo de US$ 1, capturaram a maior parte da alta até a máxima próxima de US$ 75 dois dias depois. Na soma de todas as carteiras rastreadas, ganhos e perdas praticamente se compensam, com saldo líquido estimado em cerca de US$ 236 milhões.
Essa distribuição ajuda a explicar por que memecoins políticas costumam ser mais arriscadas do que parecem no pico de atenção. O preço pode até gerar manchetes e volume, mas a janela de entrada pesa muito mais do que a narrativa. O CriptoBR já havia mostrado esse risco quando o TRUMP caiu 96% antes de um encontro cripto em Mar-a-Lago, mesmo com forte exposição midiática.
Dados do CoinGecko mostram o TRUMP negociado perto de US$ 1,81, com valor de mercado na casa de US$ 429 milhões e queda superior a 97% em relação à máxima histórica de US$ 73,43. A plataforma também registra uma oferta circulante de aproximadamente 240 milhões de tokens, de um total máximo de 1 bilhão.
World Liberty também mostra pressão no varejo
O mesmo relatório aponta perdas entre compradores secundários de WLFI, token ligado à World Liberty Financial. Segundo os dados citados, 22.715 das 26.663 carteiras monitoradas pela Nansen que compraram WLFI no mercado secundário estão no vermelho, o equivalente a cerca de 85% desse grupo. As perdas combinadas somam US$ 83 milhões, contra US$ 23 milhões em carteiras lucrativas.
A diferença é importante: os compradores da oferta inicial, que pagaram US$ 0,015 ou US$ 0,05 por token, não entram nesse cálculo. Já quem comprou depois da abertura do mercado secundário encarou preços que chegaram a US$ 0,33 e, agora, giram perto de US$ 0,056, segundo o CoinDesk.
O tema também cruza o debate regulatório nos EUA. A senadora Elizabeth Warren apresentou uma proposta para impedir que autoridades eleitas e familiares diretos emitam, patrocinem ou lucrem com memecoins, como o CriptoBR noticiou na matéria sobre a tentativa de barrar políticos de emitir memecoins.
O que o investidor deve observar
Para quem acompanha o mercado brasileiro, o episódio deixa três alertas. Primeiro, uma marca forte não elimina risco de liquidez. Segundo, dados on-chain precisam ser lidos junto com preço médio de entrada, concentração de oferta e desbloqueios. Terceiro, tokens com vínculo político podem sofrer tanto com ciclos de hype quanto com investigações, propostas legislativas e mudanças de percepção pública.
Esse padrão não se limita ao TRUMP. O mercado de memecoins já mostrou diversas vezes que receita, volume e atenção social podem conviver com perdas relevantes para a maioria dos participantes. Em outro caso recente, a Pump.fun liderou receitas na Solana mesmo com memecoins em queda, reforçando a diferença entre quem opera a infraestrutura e quem compra o ativo no mercado aberto.
A lição prática é simples: em memecoins, o preço de entrada e a capacidade de sair contam mais do que a força da narrativa. Quando o lucro fica concentrado em poucos compradores iniciais, a maior parte do varejo passa a disputar liquidez em uma curva já madura, com risco de carregar o prejuízo quando o interesse diminui.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





