A Câmara Municipal de São Paulo aprovou, na última terça-feira (15), a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a atuação da empresa Tools for Humanity (TFH), responsável pela coleta de dados biométricos de moradores da cidade em troca de criptomoedas, por meio do projeto Worldcoin – atualmente rebatizado como “World”. A proposta, apresentada pela vereadora Janaina Paschoal (PP), recebeu 39 votos favoráveis e apenas 4 contrários. A instalação da CPI deve ocorrer dentro de 15 dias.
A iniciativa busca esclarecer como a empresa, criada por Sam Altman – fundador da OpenAI –, operou no Brasil utilizando dispositivos que escaneiam a íris de cidadãos para gerar uma identidade digital chamada World ID. Em contrapartida, os participantes recebiam compensações financeiras em tokens digitais WLD. A prática, que envolve o uso de dados altamente sensíveis, motivou apurações da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e gerou forte reação entre parlamentares.
“Essa CPI é de interesse internacional, porque os dados do nosso povo foram mandados para o exterior. Nós precisamos entender o objetivo disso”, destacou Janaina Paschoal em nota divulgada pela Câmara.
A operação da TFH foi alvo de diversas críticas, tanto pelo modelo de troca de dados biométricos por recompensas quanto pela falta de transparência no destino e tratamento das informações coletadas. No fim de janeiro, a ANPD determinou a suspensão imediata da atividade da empresa no Brasil. Desde então, está proibida a coleta de íris em troca de qualquer tipo de compensação financeira, incluindo criptomoedas.
No mês passado, a Worldcoin ainda tentou recorrer da decisão e solicitou um prazo de 45 dias para adaptar seu aplicativo e descontinuar a prática, mas o pedido foi negado. Em resposta, a empresa afirmou que respeita a decisão da ANPD e informou que suspenderá temporariamente as verificações, embora mantenha abertos os pontos físicos de atendimento para “esclarecimentos ao público”.
O presidente da Câmara, vereador Ricardo Teixeira (União Brasil), pode assumir a indicação dos membros da CPI caso os líderes partidários não o façam. No entanto, a expectativa é de que essa prerrogativa também não seja exercida por ele.
O projeto Worldcoin pretende criar uma identidade digital única e global, usando como critério a íris – considerada um traço único e inalterável de cada pessoa. Os dados são armazenados em blockchain, segundo a empresa, com o intuito de garantir autenticidade digital em um cenário cada vez mais dominado por inteligência artificial e automações. No Brasil, a promessa de recompensa em tokens que chegaram a valer R$ 700 levou milhares de pessoas a aceitarem o escaneamento.





