Brad Garlinghouse, CEO da Ripple, disse que continua otimista com o Bitcoin, mas criticou o modelo usado pela Strategy para financiar novas compras da moeda. A fala aumenta a pressão sobre Michael Saylor em uma semana de queda do BTC, baixa no STRC e debate sobre o risco das tesourarias corporativas.
Brad Garlinghouse, CEO da Ripple, afirmou que segue otimista com o Bitcoin, mas colocou pressão pública sobre a estratégia de Michael Saylor na Strategy. Segundo o executivo, o modelo de emissão de ações preferenciais para financiar compras de BTC virou uma distração para o mercado cripto em um momento de liquidez mais fraca.
A crítica, reportada pelo CoinDesk neste sábado (27), ganhou força porque veio na mesma semana em que o Bitcoin voltou a negociar perto de US$ 60 mil e o STRC, papel preferencial usado pela Strategy em sua máquina de captação, caiu para níveis bem abaixo do valor de referência de US$ 100.
Garlinghouse mira o modelo da Strategy
A Strategy, empresa anteriormente conhecida como MicroStrategy, se tornou o maior exemplo de tesouraria corporativa baseada em Bitcoin. Sob Saylor, a companhia passou a levantar capital por diferentes instrumentos financeiros para aumentar sua posição em BTC, transformando a ação em uma espécie de proxy alavancado para a moeda.
O ponto sensível agora é o STRC. O papel paga dividendo anual de 11,5% e foi estruturado para negociar próximo de US$ 100. Com a queda recente para a faixa de US$ 75 a US$ 80, críticos passaram a questionar se a engrenagem de captação segue eficiente enquanto o Bitcoin cai e o apetite por risco diminui.
Garlinghouse chamou o arranjo de engenharia financeira e argumentou que valor de longo prazo em cripto precisa vir de utilidade, não apenas de estruturas de mercado. A fala também carrega um componente competitivo: a Ripple é a empresa por trás do XRP, ativo que disputa atenção institucional e narrativa com o Bitcoin em diferentes ciclos.
O debate não nasceu do zero. O CriptoBR já havia mostrado que o STRC da Strategy passou a pressionar o plano de Bitcoin da empresa, com investidores discutindo se o desconto no papel reduz a capacidade de Saylor seguir comprando BTC no mesmo ritmo.
Bitcoin fraco amplia a cobrança
A pressão sobre a Strategy fica maior porque o mercado de Bitcoin perdeu tração nos últimos dias. O BTC chegou a testar a região de US$ 58 mil, enquanto ETFs spot nos Estados Unidos registraram saídas relevantes e traders monitoraram uma grande expiração de opções. Esse pano de fundo torna qualquer estrutura dependente de demanda constante por BTC mais vulnerável a questionamentos.
O mercado também olha para a reserva de caixa da Strategy. A CryptoQuant disse ao CoinDesk nesta semana que a companhia deveria pausar novas compras de Bitcoin e recompor liquidez, citando a redução da cobertura para dividendos do STRC. A leitura não implica colapso imediato, mas reforça que o custo de manter a máquina funcionando subiu.
Do outro lado, analistas como Mark Palmer, da Benchmark-StoneX, defendem que a comparação com episódios como Terra/UST é exagerada. Para essa linha de análise, STRC não é stablecoin, não promete paridade fixa e reflete mais uma reprecificação de yield exigido pelo mercado do que uma quebra estrutural.
A discussão conversa com outros movimentos recentes. Saylor já havia defendido a possibilidade de venda de Bitcoin pela Strategy em cenários específicos, enquanto o mercado acompanhou uma sequência de saques em produtos de investimento, incluindo recordes de saída em ETFs de Bitcoin.
Por que isso importa para o investidor
Para quem acompanha Bitcoin, a crítica de Garlinghouse importa menos como rivalidade entre Ripple e Saylor e mais como sinal de que o mercado está reavaliando tesourarias cripto alavancadas. Quando o preço sobe, emissões, dividendos e recompras parecem fáceis de sustentar. Quando o BTC cai, o custo de capital aparece.
O risco central é de narrativa. A Strategy continua com uma das maiores posições corporativas em Bitcoin, mas sua capacidade de comprar mais depende da confiança de investidores nos instrumentos que financiam essa expansão. Se esses papéis negociam com desconto persistente, a empresa pode precisar pagar mais caro para captar ou reduzir o ritmo de compras.
Para o mercado cripto mais amplo, isso coloca uma pergunta prática: o ciclo de adoção institucional deve ser sustentado por utilidade, fluxo de caixa e produtos regulados, ou por estruturas financeiras cada vez mais complexas em torno do próprio Bitcoin? A resposta tende a pesar na forma como investidores avaliam a próxima fase das tesourarias corporativas.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





