O Bitcoin ultrapassou brevemente os US$ 75.900 na madrugada desta terça-feira (17), registrando sua oitava sessão consecutiva de alta — uma sequência rara que não era vista desde o último mercado de baixa em 2022. Apesar de ter recuado para a faixa dos US$ 74.300 logo em seguida, o panorama semanal conta uma história bem mais otimista: as principais criptomoedas acumulam ganhos de dois dígitos nos últimos sete dias, no rally mais amplo desde o início da guerra no Irã.
Mercado em alta generalizada
O Ethereum (ETH) lidera entre as majors com valorização de 13,3% na semana, negociado a US$ 2.316. O XRP subiu 11%, chegando a US$ 1,53 e ultrapassando o BNB em capitalização de mercado. Solana (SOL) avançou 9,7% para US$ 93,92, enquanto Dogecoin (DOGE) recuperou a marca dos US$ 0,10 com ganho de 9,5%. O BNB, por sua vez, subiu 5% para US$ 676.
É o primeiro momento desde o início do conflito no Oriente Médio em que todo o mercado sobe de forma coordenada, sinalizando uma possível mudança de sentimento entre investidores institucionais e de varejo.
ETFs de Bitcoin atraem US$ 767 milhões em uma semana
Os dados de fluxo institucional por trás do rally são difíceis de ignorar. Segundo o analista Mark Pilipczuk, da CF Benchmarks, os ETFs spot de Bitcoin registraram aproximadamente US$ 767 milhões em entradas líquidas na última semana — a terceira semana consecutiva de fluxo positivo.
Esse número representa uma reversão significativa após cinco semanas consecutivas de saídas que somaram mais de US$ 3 bilhões entre janeiro e fevereiro. A narrativa do “ouro digital” que parecia morta no início do ano está recuperando fôlego: o Bitcoin superou o ouro em 13,2% desde o início de março, e a correlação de 90 dias entre os dois ativos saltou de -0,27 para +0,29.
O teste dos US$ 75 mil foi puxado por derivativos
Vale um alerta: segundo o CoinDesk, o impulso acima dos US$ 75.000 foi liderado pelo mercado de derivativos, não por demanda spot fresca. O movimento foi desencadeado pelo fechamento de grandes posições de put (opções de venda) na faixa dos US$ 60.000, o que forçou os market makers a comprarem Bitcoin spot para rebalancear suas posições.
O recuo rápido abaixo dos US$ 74.400 — um antigo suporte de abril de 2025 — confirma que os traders não estão dispostos a perseguir preços acima desse nível sem um catalisador fundamental. E é exatamente isso que pode vir nos próximos dois dias.
Fed começa reunião hoje — dot plot é o foco
A reunião do Federal Reserve que começa nesta terça e termina na quarta-feira (18) é o grande evento da semana para mercados de risco. A ferramenta CME FedWatch atribui mais de 95% de probabilidade de manutenção da taxa de juros entre 3,5% e 3,75%, então a decisão em si não deve surpreender.
O que realmente importa é o dot plot (projeções de juros dos membros do Fed) e a coletiva de Jerome Powell. Com o petróleo acima dos US$ 100 pressionando a inflação e o mercado de trabalho enfraquecendo — os EUA perderam 92.000 empregos em fevereiro —, o Fed está preso entre dois mandatos que puxam em direções opostas.
A forma como Powell comunicar essa tensão na quarta-feira pode definir a direção dos ativos de risco, incluindo criptomoedas, até o final de março.
O que observar
Para o investidor brasileiro, o momento exige atenção redobrada. O rally é real — os números de ETF e a amplitude do mercado confirmam isso —, mas a sustentabilidade depende de fatores que ainda estão no ar: a postura do Fed, a evolução do conflito no Oriente Médio e se a demanda spot vai finalmente acompanhar o entusiasmo dos derivativos.
Se Powell sinalizar abertura para cortes no segundo semestre, o mercado pode ter combustível para testar os US$ 80.000. Se o tom for hawkish diante da inflação do petróleo, o suporte em US$ 70.000 volta a ser testado.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





