O Bitcoin foi o primeiro ativo a precificar a guerra entre EUA e Irã — simplesmente porque era o único mercado aberto quando os ataques começaram num sábado. Duas semanas depois, ele supera ouro, S&P 500, ações asiáticas e praticamente tudo que não seja petróleo.
Quando Estados Unidos e Israel lançaram os primeiros ataques ao Irã em 28 de fevereiro, o Bitcoin derreteu 8,5% no mesmo dia, caindo até US$ 64.000. Parecia o tipo de queda que quebraria a confiança do mercado por meses.
Não foi o que aconteceu.
O padrão que Wall Street não esperava
O que os dados revelam desde então é impressionante: cada escalada no conflito provocou uma queda menor que a anterior, formando um padrão de mínimas ascendentes que comprime o preço como uma mola.
A linha do tempo fala por si:
- 28 de fevereiro (ataques iniciais): mínima em US$ 64.000
- 2 de março (mísseis iranianos retaliatórios): mínima em US$ 66.000
- 7 de março (conflito sustentado): mínima em US$ 68.000
- 12 de março (ataques a petroleiros no Iraque): mínima em US$ 69.400
- 14 de março (ameaça à Ilha de Kharg): mínima em US$ 70.596
Neste domingo, o Bitcoin é negociado a US$ 71.609, acumulando alta de quase 12% desde a mínima do início do conflito. A resistência em US$ 73.000-74.000 já rejeitou quatro tentativas, mas o piso sobe entre US$ 1.000 e US$ 2.000 a cada evento — e quando o piso alcança o teto, algo precisa ceder.
Superando ouro, S&P 500 e ações globais
A comparação com outros ativos no mesmo período é reveladora. O S&P 500 recuou. O ouro oscilou intensamente nas duas direções. Ações asiáticas tiveram a pior semana desde março de 2020. O mercado sul-coreano sofreu pesadamente.
Apenas o petróleo (alta superior a 40%) e o dólar tiveram performance melhor que o Bitcoin — e ambos são beneficiários diretos do próprio conflito.
A tese de Bitcoin como reserva de valor — que havia sido contestada durante a estagnação de preços no fim do ano passado — voltou ao radar dos investidores com força.
O “absorvedor de choque” mais rápido do mundo
O que diferencia o Bitcoin de qualquer outro ativo neste momento é sua disponibilidade 24/7. Quando bombas caem no sábado, bolsas estão fechadas. Ouro não está negociando. Mas o Bitcoin está — e é ele quem absorve o choque primeiro.
Isso cria uma dinâmica única: o Bitcoin vende a cada manchete, mas se recupera mais rápido a cada vez, e cada recuperação segura num nível mais alto.
Como observou a CoinDesk, o Bitcoin não é um ativo de refúgio clássico nem puramente um ativo de risco. Ele se tornou um pool de liquidez 24/7 que absorve choques mais rápido do que qualquer outro mercado — simplesmente porque é o único operando quando os choques acontecem.
O reset que limpou o caminho
O contexto importa. No início de fevereiro, uma cascata de liquidações eliminou US$ 2,5 bilhões em posições alavancadas num único fim de semana, quando o Bitcoin despencou até US$ 77.000 desde seu pico de outubro, apagando cerca de US$ 800 bilhões em valor de mercado.
Aquele evento, paradoxalmente, limpou as mãos fracas do mercado. O que sobrou é um mercado mais enxuto e resiliente que absorveu cada escalada geopolítica sem repetir aquele tipo de venda forçada.
E agora? O cenário de tensão permanece
Na última sexta-feira, o presidente Trump afirmou que poupou a infraestrutura petrolífera da Ilha de Kharg, no Irã, “por razões de decência”, mas que “reconsideraria imediatamente” se o Irã continuasse bloqueando o Estreito de Ormuz. O Irã respondeu que qualquer ataque à infraestrutura energética provocaria retaliação contra instalações ligadas aos EUA.
Se essa ameaça se materializar, a ruptura no fornecimento global de petróleo — que a AIE já classificou como a maior da história — ficará dramaticamente pior.
Para o Bitcoin, isso significa mais volatilidade, mais manchetes, e provavelmente mais oportunidades de compra em cada queda. O padrão de mínimas ascendentes precisa se resolver: ou o piso alcança o teto e o BTC rompe acima de US$ 74.000, ou uma escalada massiva finalmente supera a compra.
Por enquanto, os compradores estão ganhando.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





