O Bitcoin voltou a ficar abaixo de US$ 80 mil após novas tensões entre EUA e Irã elevarem o petróleo e puxarem uma rotação defensiva no mercado. Segundo o CoinDesk, quase US$ 300 milhões em posições alavancadas foram liquidadas em 24 horas, com traders buscando proteção via opções de venda.
O Bitcoin caiu para abaixo de US$ 80 mil nesta sexta-feira (8), pressionado por uma combinação de tensão geopolítica, alta temporária do petróleo e redução de risco nos mercados. A queda interrompeu parte do alívio recente da criptomoeda e provocou uma onda de liquidações em derivativos, atingindo principalmente posições compradas.
De acordo com o CoinDesk, o movimento veio após novos ataques dos Estados Unidos no Irã levarem o petróleo Brent a tocar brevemente a marca de US$ 100 por barril. Em cenários assim, investidores tendem a reduzir exposição a ativos considerados mais voláteis, como criptomoedas, enquanto reprecificam inflação, juros e risco macro.
Alavancagem amplifica a queda do Bitcoin
O ajuste foi mais forte no mercado de derivativos. O interesse em aberto dos futuros cripto recuou cerca de 1,5%, para US$ 131,5 bilhões, enquanto o volume caiu mais de 12%, para US$ 191 bilhões. No mesmo período, quase US$ 300 milhões em apostas foram liquidadas, com as posições long respondendo pela maior parte do impacto.
Esse detalhe importa porque mostra que parte do mercado estava posicionado para continuidade da recuperação. O Bitcoin vinha de uma alta desde a região de US$ 65 mil no fim de março e ainda preserva uma estrutura melhor do que a vista no primeiro trimestre. Mas, no curto prazo, a perda dos US$ 80 mil mudou o tom: traders passaram a comprar mais puts de proteção em strikes como US$ 80 mil, US$ 75 mil e US$ 60 mil na Deribit.
O movimento também conversa com o cenário descrito recentemente pelo CriptoBR, quando Tom Lee apontou a região de US$ 76 mil como nível relevante para a leitura do ciclo. Uma queda abaixo de US$ 75 mil, segundo a leitura citada pelo CoinDesk, poderia enfraquecer a sequência de fundos ascendentes construída nas últimas semanas.
Petróleo, juros e payroll entram no radar
O gatilho geopolítico não atua isolado. Petróleo mais caro pode reacender preocupações inflacionárias e, por tabela, reduzir a expectativa de cortes de juros nos Estados Unidos. Para ativos como Bitcoin e Ether, isso costuma pesar porque diminui o apetite por risco e aumenta a disputa por liquidez com renda fixa e dólar.
Além disso, o mercado aguardava o relatório de emprego dos EUA, o payroll, que pode influenciar a próxima leitura do Federal Reserve. Se salários e criação de vagas vierem fortes, o mercado pode interpretar que o banco central terá menos espaço para flexibilizar a política monetária. Se vierem fracos, o efeito pode ser o oposto — embora, em meio a choque geopolítico, a reação fique menos linear.
O Ether também sentiu a pressão e era negociado perto de US$ 2.280, com queda em 24 horas. Algumas altcoins de maior beta tiveram desempenho pior, enquanto moedas de privacidade como Monero e Dash recuaram entre 4% e 5%, ainda segundo os dados citados pelo CoinDesk.
DeFi destoa com alta de ONDO
Apesar da fraqueza nos principais criptoativos, o setor DeFi destoou. O índice DeFi Select do CoinDesk avançou mais de 3%, puxado principalmente pela alta de mais de 8% da ONDO. A força veio após a Ondo Finance concluir uma operação de resgate transfronteiriço de Treasuries tokenizados envolvendo JPMorgan, Mastercard e Ripple.
O tema já vinha ganhando espaço no mercado de RWA. Na quinta-feira, o CriptoBR mostrou que Ondo, JPMorgan e Ripple liquidaram Treasuries no XRPL, reforçando como a tokenização de ativos tradicionais segue avançando mesmo em dias de aversão a risco.
Também há um pano de fundo institucional mais amplo. Bancos e gestores seguem testando infraestrutura cripto, como mostrou a recente entrada do BNY em custódia de Bitcoin e Ether em Abu Dhabi. Isso não elimina a volatilidade de curto prazo, mas ajuda a separar dois movimentos: o preço reage ao choque macro, enquanto a adoção institucional continua se desenvolvendo em paralelo.
O que observar agora
Para o leitor, o ponto central é simples: a região entre US$ 75 mil e US$ 80 mil virou zona de teste para o Bitcoin. Enquanto o preço se mantiver nesse intervalo, o mercado deve alternar entre compras defensivas, redução de alavancagem e tentativas de recuperação guiadas por dados macro.
Se o petróleo voltar a subir e o payroll reforçar a ideia de juros mais altos por mais tempo, a pressão pode continuar. Por outro lado, uma estabilização geopolítica combinada com dados econômicos mais brandos pode aliviar a busca por proteção e devolver fluxo para ativos de risco. Até lá, a leitura mais prudente é tratar o recuo como um teste de estrutura, não como confirmação automática de tendência de baixa.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





