Grandes carteiras acumularam mais de 270 mil BTC, cerca de US$ 16,7 bilhões, enquanto ETFs spot de Bitcoin nos EUA tiveram o pior mês de saques desde o lançamento. O movimento sugere uma disputa entre venda institucional de curto prazo e compra de holders maiores, com inflação nos EUA como próximo gatilho para o mercado.
As maiores carteiras de Bitcoin compraram mais de 270 mil BTC nas últimas duas semanas, o equivalente a cerca de US$ 16,7 bilhões, justamente enquanto os ETFs spot dos Estados Unidos registravam uma saída recorde de capital. O contraste coloca o mercado em um ponto sensível: investidores institucionais reduziram exposição, mas grandes holders aproveitaram a pressão vendedora para acumular.
Segundo dados citados pelo CoinDesk, os ETFs spot de Bitcoin perderam US$ 4,06 bilhões em junho, o pior mês desde a estreia desses produtos. A sequência deixou os fundos no negativo em 2026 antes de uma entrada pontual de US$ 221 milhões na quinta-feira.
Baleias vão na direção oposta dos ETFs
A leitura mais importante não está apenas no tamanho da saída dos ETFs, mas na divergência entre fluxos. Analistas da Bitfinex afirmaram ao CoinDesk que grandes carteiras adicionaram mais de 270 mil BTC em duas semanas, mesmo com o prêmio spot ainda negativo, sinal de que a demanda forte não vinha necessariamente das mesas tradicionais dos EUA.
Esse tipo de comportamento costuma chamar atenção porque apareceu em outros momentos de fundo de ciclo: enquanto parte do mercado vende por pressão de curto prazo, holders maiores absorvem moedas antes de uma eventual recuperação. Isso não garante virada imediata, mas ajuda a explicar por que quedas fortes nem sempre significam capitulação generalizada.
O dado também conversa com o quadro recente dos fundos listados em bolsa. Como o CriptoBR mostrou na matéria sobre ETFs de Bitcoin que captaram US$ 223 milhões após 10 dias de saques, a entrada de quinta-feira aliviou a pressão, mas ainda ficou pequena diante das perdas acumuladas no ano.
Bitcoin ainda depende do macro
O Bitcoin rondava a faixa de US$ 63 mil no levantamento do CoinDesk, depois de tocar mínimas de 21 meses abaixo de US$ 58 mil no começo da semana. A recuperação recente foi suficiente para reduzir parte do pessimismo, mas não mudou sozinha a estrutura do mercado.
O próximo ponto de atenção é a inflação nos Estados Unidos. O dado de maio veio quente, em 4,2%, e um novo número acima do esperado pode reforçar a percepção de juros altos por mais tempo. Para ativos de risco, incluindo Bitcoin, isso tende a pesar sobre liquidez e apetite institucional.
Esse pano de fundo ajuda a explicar por que o mercado ainda busca confirmação. Em outra frente, o CriptoBR destacou que o Bitcoin pode precisar de US$ 1 trilhão em capital novo para sustentar uma nova fase parabólica. A acumulação das baleias melhora o sinal on-chain, mas não substitui fluxo persistente de compradores.
Solana destoa entre as grandes criptos
O relatório também apontou uma exceção relevante entre os principais ativos: a Solana subiu cerca de 15% desde o início de junho, enquanto o Bitcoin ainda tentava se recuperar da pressão. A rede foi beneficiada por upgrades de protocolo e por um salto em transferências on-chain de ativos tokenizados do mundo real, que teriam avançado 120% para US$ 8,53 bilhões.
O movimento reforça uma rotação seletiva dentro do mercado cripto. Como reportado na cobertura sobre Ether e Solana em alta após short squeeze de US$ 281 milhões, algumas altcoins reagiram mais rápido que o Bitcoin nesta semana, embora o cenário geral ainda dependa de liquidez e dados macroeconômicos.
Para o investidor, a mensagem é menos sobre euforia e mais sobre composição de sinais. Saques recordes em ETFs mostram cautela institucional; compras de baleias indicam absorção; e a inflação dos EUA segue como variável capaz de confirmar ou invalidar a melhora recente. Até que esses três vetores apontem na mesma direção, o mercado tende a continuar volátil.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





