A ANBIMA abriu as inscrições para a fase de testes do seu projeto piloto de tokenização, voltado a simular o ciclo completo de vida de debêntures e de fundos de investimento em uma rede DLT privada e permissionada. A associação informou que as propostas podem ser enviadas até 13 de março de 2026, por instituições associadas e não associadas, e que o resultado da seleção deve sair no início de abril, com até 20 projetos escolhidos para participar do ambiente de testes.
O desenho do piloto foi estruturado para reduzir risco jurídico e operacional. A ANBIMA descreve que os experimentos ocorrerão em ambiente supervisionado e simulado, sem movimentação de recursos financeiros reais, com emissões, liquidações e transações feitas com valores fictícios. A ideia é gerar aprendizado sobre governança, padronização e integração entre participantes, antes de qualquer discussão sobre uso em produção no mercado.
Por que a ANBIMA escolheu debêntures e fundos
A escolha das debêntures aparece como um recorte pragmático: é um instrumento com grande relevância no financiamento corporativo no Brasil e, nos últimos dados divulgados pela própria ANBIMA, liderou as captações do mercado de capitais em 2025. A associação registrou volume total recorde de ofertas no ano e destacou as debêntures como principal instrumento desse movimento.
No caso dos fundos, o foco do piloto tende a ir além de “tokenizar cotas” e mirar processos ponta a ponta com contratos inteligentes, com regras automatizadas de governança e controles, testando como esses mecanismos se comportam dentro de um modelo permissionado e supervisionado. O objetivo é medir eficiência, rastreabilidade e redução de custos operacionais, sem antecipar decisões de arquitetura definitiva antes de provar valor no básico.
O que o piloto deve testar na prática
O projeto se propõe a avaliar a emissão nativa de ativos na própria DLT, a automação via smart contracts, a identificação e rastreabilidade dos tokens e de emissores desde a origem, além da integração técnica entre debêntures e fundos emitidos nessa infraestrutura. A ANBIMA também indica um ciclo de testes de aproximadamente seis meses, com acompanhamento por comitê técnico e etapa de capacitação para as instituições participantes.
A estratégia de comunidade, na visão do nosso especialista em crescimento
Para ganhar tração real, o piloto precisa ser comunicado como engenharia de mercado, não como tendência. A estratégia mais eficaz é publicar entregáveis simples e verificáveis: quais eventos do ciclo de vida foram testados, quais atritos apareceram (cadastros, regras, conciliações, auditoria), e quais padrões mínimos emergiram para interoperabilidade.
Em paralelo, vale segmentar a comunicação em dois públicos. Para o público técnico, documentação objetiva sobre fluxos e requisitos de integração. Para o público executivo e regulatório, métricas de eficiência e de controle: redução de etapas manuais, rastreabilidade, governança e evidências de conformidade. Isso evita que o debate seja capturado por promessas genéricas e ajuda a criar confiança incremental.
O piloto da ANBIMA sinaliza uma abordagem conservadora e orientada a evidências: testar primeiro, com valores fictícios e rede permissionada, para entender ganhos e limites antes de mexer na infraestrutura real do mercado. Se os testes entregarem padrões e resultados comparáveis, a tokenização de debêntures e fundos pode avançar como melhoria operacional concreta, e não apenas como reembalagem tecnológica de processos já existentes.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





