A Riachuelo informou a investidores que avançou, em 2025, no uso de blockchain para aumentar a transparência da sua cadeia de fornecimento. Segundo a companhia, a iniciativa resultou no lançamento de mais de 115 mil peças rastreadas, com a proposta de permitir que o consumidor acompanhe o percurso do produto desde a origem da fibra até a chegada às lojas.
O movimento ocorre em um setor que, historicamente, enfrenta pressão para publicar dados verificáveis sobre origem de matérias-primas, condições de produção e rastreabilidade. No Brasil, levantamentos do Fashion Revolution indicam que a transparência ainda é limitada, especialmente nas etapas mais profundas da cadeia, como a matéria-prima e o processamento.
Nos comunicados ao mercado, a empresa também afirmou ter subido quatro posições no Índice de Transparência da Moda Brasil 2025, chegando à 7ª colocação em um ranking com 59 marcas, com pontuação pública de 57%, acima da média geral reportada de 24%. Esse tipo de indicador costuma ser usado por marcas e investidores como termômetro externo para comparar a maturidade de práticas de reporte e governança socioambiental.
Como a rastreabilidade tende a funcionar na prática
A empresa não detalhou integralmente a arquitetura do sistema no comunicado de resultados, mas a lógica típica de rastreabilidade com blockchain combina registros de eventos ao longo da cadeia e um identificador por lote ou produto, muitas vezes acessado via QR Code na etiqueta. Com isso, cada etapa relevante pode ser registrada de forma auditável, reduzindo a dependência de declarações isoladas e facilitando checagens sobre origem, rota e conformidade.
Em 2025, a Riachuelo também apareceu em reportagens sobre uma coleção com rastreabilidade total e o uso de “passaporte digital” em parceria com a Blockforce, associando blockchain e outros recursos digitais para expor a jornada do produto ao consumidor.
Rebranding na B3 e sinalização ao mercado
O tema ganhou ainda mais visibilidade após a Guararapes, controladora da Riachuelo, alterar o nome de pregão para “Riachuelo” e trocar o ticker de GUAR3 para RIAA3 a partir de 5 de fevereiro de 2026. A mudança foi apresentada como uma forma de aproximar a identidade na Bolsa do nome mais conhecido pelo público.
O que muda para o consumidor e para a indústria
Para o consumidor, o benefício direto é a possibilidade de verificar informações de origem e trajetória de uma peça sem depender apenas de campanhas publicitárias. Para a indústria, a aplicação pode ajudar a padronizar evidências, facilitar auditorias e reduzir ruído em temas sensíveis como procedência de fibra, requisitos socioambientais e risco de trabalho irregular em elos terceirizados.
A questão central, porém, é qualidade de dado: blockchain não “cria verdade” sozinha. Ela preserva registros e facilita verificação, mas os dados de entrada ainda precisam de processos de validação, governança e auditoria para evitar lacunas e inconsistências.
A estratégia de comunidade, do jeito que quase ninguém faz
O nosso especialista em crescimento de comunidade defende que rastreabilidade só vira vantagem competitiva quando sai do relatório e entra na conversa diária com o público. Em vez de anunciar “temos blockchain”, a recomendação é contar histórias curtas e verificáveis com base no que o cliente consegue checar na etiqueta: origem da fibra, onde foi beneficiada, onde foi confeccionada e qual foi o caminho até a loja. Isso reduz ceticismo porque o consumidor não precisa acreditar, ele pode conferir.
O segundo ponto é transformar transparência em participação. A estratégia proposta é criar rotinas de conteúdo e ativação com “missões” simples, como campanhas de escaneamento do QR Code com recompensas simbólicas, desafios de guarda-roupa responsável e incentivo para o público apontar dúvidas e inconsistências que a marca se compromete a responder. A comunidade deixa de ser audiência e vira camada de validação social, o que tende a elevar retenção e gerar defensores orgânicos quando a experiência de checagem é clara e consistente.
A mensagem da Riachuelo ao mercado é que a rastreabilidade via blockchain já saiu do piloto e ganhou escala em 2025, com mais de 115 mil peças rastreadas e um discurso alinhado a métricas externas de transparência. O próximo passo para consolidar credibilidade não é apenas ampliar volume, mas detalhar padrões, garantir qualidade do dado e colocar o consumidor no centro da verificação. Se conseguir transformar rastreabilidade em hábito e não em slogan, a empresa tem chance de fazer da transparência um diferencial real, e não apenas mais um item de relatório.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





