Muitas vezes, ouço o termo “token” sendo utilizado de forma geral, como se todas as variedades fossem idênticas. Um aspecto importante, porém frequentemente esquecido sobre ativos tokenizados, são os padrões de tokens utilizados. Neste artigo, pretendo esclarecer esse assunto e compartilhar minhas percepções.
Para quem não está familiarizado, os ERCs (Ethereum Request for Comments) são padrões que descrevem como os tokens operam na blockchain Ethereum. Acredito fortemente que diferentes ativos financeiros exigem padrões de tokens distintos para funcionar de forma ideal.
Vou usar uma analogia com a compra de um apartamento para facilitar o entendimento. Apresentar documentos, registrar em cartório e pagar taxas são algumas das obrigações quando você compra um imóvel. No entanto, seguir o mesmo procedimento para comprar ações de uma empresa não faria sentido, pois é um ativo completamente diferente.
De forma semelhante, os padrões usados para os tokens devem ser específicos para cada tipo de ativo. Diferentes ativos possuem regras distintas, exigindo padrões que respeitem essas particularidades.
O Que é ERC?
Os padrões ERC são como manuais técnicos que guiam os desenvolvedores a criar tokens na blockchain. Esses padrões detalham regras e funções essenciais para que tokens e contratos inteligentes possam trabalhar juntos.
Padronizar é benéfico pois facilita a troca de tokens e sua integração em diversas plataformas, além de tornar transações mais simples e baratas. No fim das contas, é como ter regras universais que ajudam no comércio e nas finanças entre países diferentes. Na blockchain, os padrões ERC fazem com que todos possam colaborar num ambiente coeso e seguro, estimulando inovações e o crescimento do mercado.
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Principais Padrões ERC ERC-20: Este padrão é amplamente adotado para tokens fungíveis, que são intercambiáveis entre si, e funcionam como moedas tradicionais. O ERC-20 estabelece funções fundamentais, incluindo transferência de tokens, verificação de saldo e autorização de transações. Ele é crucial para desenvolver moedas e tokens de utilidade, sendo um pilar no mundo das criptomoedas. |
Qual ERC escolher?
Para escolher o padrão de token ideal para o ativo, é importante considerar algumas questões. Primeiramente, a natureza do ativo é crucial. Ativos físicos, como imóveis, são bem diferentes de ativos digitais, como criptomoedas ou ações tokenizadas. Cada um tem suas particularidades e necessidades específicas.
A liquidez do ativo é outro ponto chave. Alguns ativos precisam de mais liquidez e flexibilidade nas transações do que outros. Por exemplo, imóveis geralmente têm menos liquidez comparados às criptomoedas, que são facilmente negociáveis. Já os regulamentos são uma parte que não podemos ignorar. Cada tipo de ativo pode estar sujeito a diferentes regras e leis que precisam ser incorporadas ao padrão de token escolhido.
A segurança é essencial, especialmente para ativos que demandam altos níveis de proteção nas transações. Ninguém quer correr riscos desnecessários, certo? Por fim, a complexidade do ativo também influencia a escolha do padrão de token. Alguns ativos podem precisar de funcionalidades adicionais, como pagamento de dividendos ou direitos de voto, e o padrão de token deve suportar essas características.
Abaixo eu trago alguns exemplos de ativos que podem ser tokenizados, quais padrões eu acredito serem ideias e quais não são recomendáveis.
Vamos começar com exemplos de dívidas:
Debêntures: Para debêntures, que são títulos de dívida emitidos por empresas, o padrão recomendado é o ERC-3643. Isso porque as debêntures exigem alta conformidade regulatória, e esse padrão permite controle de transferência e verificação de identidade, garantindo que só investidores qualificados possam possuir esses títulos. Além disso, ele facilita a recuperação de tokens em caso de perda das chaves privadas, o que é crucial para a segurança dos investidores. Outros padrões como o ERC-20 e o ERC-1155 não possuem mecanismos que suportem a complexidade regulatória e verificação de identidade, o que pode resultar em riscos de não conformidade e segurança.
Certificados de Depósito Bancário (CDBs): Para CDBs, que são títulos de dívida emitidos por bancos, o ERC-20 é ideal. Ele oferece simplicidade e eficiência na criação de tokens fungíveis, perfeitos para representar CDBs que são intercambiáveis e exigem movimentação rápida. Outros padrões, como o ERC-721 e o ERC-1155, são mais complexos e não oferecem vantagens significativas para a fungibilidade necessária dos CDBs.
Agora, falando de equity:
Ações Ordinárias (ON): Para ações ordinárias, que representam frações do capital social de uma empresa, o ERC-20 é recomendado. Ele facilita a criação de tokens fungíveis e permite negociações em exchanges descentralizadas, além de ser possível incluir funcionalidades para distribuição automática de dividendos e direitos de voto. O ERC-721 não é adequado porque as ações precisam ser fungíveis, e o ERC-1155 é desnecessariamente complexo.
Fundos Imobiliários (FIIs): Para FIIs, que necessitam de simplicidade e eficiência na representação de cotas fungíveis, o ERC-20 também é o padrão ideal. Ele permite fácil negociação das cotas e facilita a distribuição periódica de rendimentos. Padrões como o ERC-721 e o ERC-1155 adicionam complexidade desnecessária.
Quando falamos de derivativos:
Contratos Futuros: Para contratos futuros mais simples, o ERC-20 é suficiente, mas para derivativos complexos, o ERC-1155 é ideal, pois permite múltiplos tipos de tokens dentro de um mesmo contrato, como contratos futuros com diferentes vencimentos. O ERC-721 não é adequado porque contratos futuros necessitam de fungibilidade.
Opções: Para opções, o ERC-1155 é recomendado. Ele permite a criação de múltiplos tipos de tokens dentro de um único contrato, ideal para opções com diferentes strikes e vencimentos, além de facilitar transferências em lote. O ERC-20 é limitado para representar a complexidade das opções.
Falando de mercadorias:
Ouro: O ERC-1155 é ideal para ouro, pois permite a criação de tokens fungíveis e não fungíveis, o que é perfeito para representar ouro que pode ser negociado em mercados futuros e transformado em ativos colecionáveis. O ERC-20 não suporta a complexidade necessária para representar ouro, e o ERC-721 não é ideal para algo que precisa de fungibilidade.
Petróleo: Da mesma forma, o ERC-1155 facilita a representação de diferentes grades e volumes de petróleo, necessário para a negociação eficiente em mercados de commodities. O ERC-20 não oferece flexibilidade suficiente, e o ERC-721 não é necessário.
Finalmente, falando de ativos do mundo real (RWA):
Imóveis: Para tokenização de propriedades imobiliárias, o ERC-3643 é ideal. Ele oferece alta conformidade regulatória e controle de transferência, permitindo verificação de identidade e garantindo que só investidores qualificados possam possuir os tokens. Outros padrões como o ERC-20 e o ERC-1155 não possuem mecanismos robustos para conformidade regulatória.
Obras de Arte: Para obras de arte, o ERC-721 é perfeito. Esses itens são únicos e não fungíveis, e esse padrão permite prova de autenticidade e propriedade, essencial para o mercado de arte. O ERC-20 e o ERC-1155 são inadequados porque não capturam a unicidade necessária.
A seleção do padrão de token mais adequado é fundamental para garantir que a representação do ativo subjacente seja precisa e reflita suas características específicas.
Sejam debêntures que exigem alta conformidade, ações que precisam ser facilmente negociadas ou ouro que combina fungibilidade e características de colecionáveis, o padrão de token certo faz toda a diferença. A tecnologia blockchain oferece flexibilidade incrível, mas cabe a nós escolher as ferramentas certas para cada situação.
*Caroline Nunes é co-fundadora da Infratoken e da InspireIP. É diretora de Operações da Infratoken e diretora da Associação Brasileira de Empresas Tokenizadoras e de Blockchain (Abtoken).
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





