A NEO enfrenta uma crise de governança depois que seu cofundador Da Hongfei afirmou que cerca de 85% dos tokens estratégicos do projeto seguem sob controle individual de Erik Zhang. A disputa expõe o risco de manter ativos sem proteção multisig e pode redefinir como a fundação administra um tesouro estimado em mais de US$ 460 milhões. Para o mercado, o caso funciona como alerta sobre concentração de chaves e governança em blockchains maduras.
A NEO voltou ao centro do noticiário cripto neste domingo, 19, após o cofundador Da Hongfei afirmar que cerca de 85% dos tokens NEO e GAS vinculados ao projeto continuam sob controle individual de Erik Zhang, também cofundador da rede. Segundo Da, esse bloco está guardado em carteiras de assinatura única e representaria entre US$ 200 milhões e US$ 250 milhões, um valor que rivaliza com a própria capitalização de mercado atual da blockchain.
A declaração foi dada em entrevista ao CoinDesk e aparece no momento em que a comunidade discute duas propostas rivais para reestruturar a Neo Foundation. Na prática, a disputa expõe um problema clássico de infraestrutura cripto, manter uma fatia crítica do tesouro em carteiras pessoais, sem proteção multisig e com pouca supervisão formal.
Disputa entre fundadores trava reestruturação
Da Hongfei publicou em 9 de abril uma proposta de reestruturação no GitHub que prevê redomiciliar a fundação para as Ilhas Cayman, criar um conselho independente com cinco membros e retirar os dois fundadores do board por 24 meses. O plano também prevê redistribuir cerca de 26 milhões de NEO e 40 milhões de GAS para os detentores do token, além de consolidar os ativos hoje espalhados entre diferentes estruturas.
Erik Zhang respondeu com uma contraproposta que mantém a fundação em Singapura, preserva sua presença no conselho e defende uma investigação formal sobre a gestão histórica dos ativos. O texto fala em transparência contínua, supervisão independente e responsabilização por eventuais conflitos de interesse. Em outras palavras, os dois lados concordam que a governança atual não funciona, mas divergem sobre quem deve conduzir a correção.
O impasse é relevante porque o relatório financeiro de 2025 da NEO mostrou um tesouro de aproximadamente US$ 460 milhões, incluindo mais de 1.100 BTC, mais de US$ 100 milhões em stablecoins e caixa, além de participações em investimentos de risco. Como já explicamos na seleção das melhores carteiras de criptomoedas, concentrar o controle em uma única chave aumenta o risco operacional mesmo quando o patrimônio pertence a um projeto consolidado.
Por que o caso importa para o mercado
O caso da NEO chama atenção porque mistura governança on-chain, estrutura jurídica e segurança de custódia. A proposta de Da Hongfei trata a transferência para multisig como condição para encerrar a dependência de pessoas específicas. Já a de Zhang tenta restaurar a legitimidade da fundação com mais mecanismos de auditoria e autoridade vinculada à comunidade.
Para investidores, o episódio reforça um ponto que vem ganhando peso em todo o setor, tesourarias cripto não podem depender da boa vontade de um único operador. O tema conversa com discussões recentes sobre autocustódia e separação de responsabilidades, como mostramos na matéria sobre a orientação da SEC sobre chaves e carteiras e também no debate mais amplo sobre governança corporativa com blockchain.
Da Hongfei disse ao CoinDesk que sua proposta depende da cooperação de Zhang para mover os ativos para um endereço com múltiplas assinaturas. Sem isso, a NEO seguiria com metade de seu poder econômico travado em uma estrutura que o próprio cofundador descreve como incompatível com governança constitucional. Zhang ainda não havia respondido ao CoinDesk até a publicação do texto original.
O mercado agora deve observar se a comunidade conseguirá pressionar por uma solução institucional ou se a disputa entre os fundadores vai prolongar a paralisia. Em um ciclo em que transparência e gestão de tesouro voltaram ao radar, o caso da NEO lembra que descentralização não depende só do código, mas também de quem segura as chaves.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





