A Nasdaq e a Intercontinental Exchange (ICE), controladora da Bolsa de Nova York (NYSE), estão unindo forças com exchanges de criptomoedas para colocar o mercado global de ações — avaliado em US$ 126 trilhões — na blockchain. As duas gigantes de Wall Street firmaram parcerias estratégicas com Kraken e OKX, respectivamente, sinalizando que a tokenização de ativos tradicionais deixou de ser promessa e virou projeto com cronograma definido.
Nasdaq + Kraken: ações tokenizadas até 2027
A Nasdaq está desenvolvendo um framework que permitirá empresas listadas em bolsa emitirem versões de suas ações baseadas em blockchain, preservando direitos de propriedade e governança tradicionais. Para distribuição global desses ativos tokenizados, a exchange fechou parceria com a Payward, empresa-mãe da Kraken.
A expectativa é que o serviço esteja disponível já no primeiro semestre de 2027 — um prazo agressivo para padrões de Wall Street.
NYSE (ICE) investe na OKX a US$ 25 bilhões
Poucos dias antes do anúncio da Nasdaq, a ICE revelou um investimento estratégico na OKX, avaliando a exchange cripto em US$ 25 bilhões. O acordo inclui planos para lançamento de ações tokenizadas e futuros de criptomoedas, permitindo que a operadora da NYSE acesse a base de 120 milhões de usuários da OKX.
A corrida pela “exchange de tudo”
Antoine Scalia, CEO da plataforma de compliance cripto Cryptio, afirma que o movimento aponta para o que ele chama de “exchange de tudo” — um mercado unificado onde todas as classes de ativos negociam na mesma infraestrutura.
“Por muito tempo, eram apenas os cripto-nativos defendendo que finanças tradicionais e cripto iriam convergir. Agora vemos as grandes exchanges se movimentando. É a constatação de que, eventualmente, todos os ativos serão liquidados em trilhos blockchain.”
A mudança ganhou impulso após uma declaração da SEC em janeiro de 2026 que finalmente esclareceu que ações tokenizadas possuem o mesmo peso legal que suas versões tradicionais — dando cobertura jurídica para os gigantes de Wall Street entrarem nesse mercado.
Rivais e parceiros ao mesmo tempo
A dinâmica entre bolsas tradicionais e exchanges cripto é curiosa: são rivais potenciais que precisam um do outro.
As bolsas tradicionais querem acesso aos traders cripto-nativos, enquanto plataformas como Coinbase e Kraken buscam a credibilidade e distribuição que a infraestrutura financeira estabelecida proporciona. O resultado é uma relação de “frenemy” — cooperação competitiva.
Mercado trilionário em expansão
Atualmente, o mercado de ações tokenizadas vale cerca de US$ 1 bilhão — uma fração minúscula dos US$ 126 trilhões globais. Mas o potencial é gigantesco:
- O valor de mercado das ações tokenizadas triplicou desde meados de 2025, segundo dados da RWA.xyz
- Um relatório conjunto da Boston Consulting Group e Ripple projeta crescimento de 53% ao ano para ativos tokenizados, podendo chegar a US$ 18,9 trilhões até 2033
- Kraken, Ondo Finance e Robinhood já estão oferecendo versões tokenizadas de ações
Por que isso importa
As principais vantagens de colocar ações tradicionais na blockchain incluem:
- Negociação 24/7: Diferente das bolsas tradicionais com horários fixos, ativos tokenizados podem ser negociados a qualquer hora
- Liquidez unificada: Conectar pools de liquidez tradicionais e on-chain pode resolver um dos maiores gargalos atuais
- Eficiência de capital: Ações tokenizadas podem ser usadas como colateral em protocolos DeFi, abrindo novas possibilidades de financiamento
Yuki Yuminaga, fundador da startup de tokenização Tenbin Labs, destaca que a entrada de gigantes como Nasdaq e NYSE pode ser o catalisador que faltava: “Ações tokenizadas sofriam com liquidez porque mercados tradicionais e on-chain estavam separados. Se a Nasdaq conectar esses dois pools, a equação muda completamente.”
A tokenização do mercado de ações está deixando de ser tese acadêmica e virando realidade operacional. Com Nasdaq e NYSE liderando a corrida, a pergunta não é mais se vai acontecer — mas quem vai dominar esse novo mercado.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





