O fundo de crédito privado de US$ 26 bilhões da BlackRock começou a limitar resgates nesta sexta-feira (6), em meio a um aumento nas solicitações de saque por parte dos investidores. A notícia, publicada pela Bloomberg, intensificou a pressão sobre os mercados de risco — incluindo o Bitcoin, que recuou para US$ 68.800.
Estresse no crédito privado se espalha
A decisão da BlackRock não é um caso isolado. A Blue Owl, outra gestora relevante no segmento, vendeu US$ 1,4 bilhão em empréstimos no mês passado para atender pedidos de resgate e, segundo a Reuters, tem exposição a uma credora imobiliária britânica que colapsou recentemente.
Ações de grandes gestoras como BlackRock (BLK), Apollo Global Management (APO), Ares Management (ARES) e KKR caíram entre 4% e 6% nesta sexta, aprofundando as perdas acumuladas em 2026.
O mercado de crédito privado global é estimado em US$ 3,5 trilhões, segundo a Alternative Credit Council. Bancos americanos têm cerca de US$ 300 bilhões em empréstimos concedidos a provedores de crédito privado e outros US$ 285 bilhões a fundos de private equity — o que eleva o risco de contágio para o setor bancário.
Tempestade perfeita: crédito, petróleo e geopolítica
Andreja Cobeljic, chefe de derivativos do banco crypto suíço AMINA Bank, alertou que o cenário é preocupante quando combinado com outros fatores:
“Isoladamente, isso seria administrável. Mas surgindo no meio de um evento mais amplo de desalavancagem global, ao lado de um choque energético e do colapso nas expectativas de corte de juros, é uma conversa diferente.”
O contexto macroeconômico é desafiador. O presidente Donald Trump declarou nesta sexta que não haverá acordo com o Irã “exceto rendição incondicional”, o que enviou o petróleo WTI para perto de US$ 90 por barril — máxima em vários anos. O Nasdaq futuro recuou 1,8%, arrastando ativos de risco junto.
Paralelamente, os EUA registraram perda inesperada de 92 mil empregos em fevereiro, com a taxa de desemprego subindo para 4,4%. Normalmente, dados assim incentivariam cortes de juros pelo Federal Reserve — mas a inflação persistente acima da meta de 2% e a alta do petróleo complicam o cenário.
DeFi na linha de fogo: o risco dos ativos tokenizados
Um segundo canal de contágio pode atingir o mercado crypto diretamente: os produtos de crédito privado tokenizados.
Segundo dados da rwa.xyz, o mercado de crédito privado on-chain já soma quase US$ 5 bilhões. Embora ainda pequeno frente ao mercado global, a crescente presença desses ativos dentro de protocolos DeFi cria um canal direto de transmissão de estresse.
“Instituições estão entrando no crypto, mas frequentemente com produtos que nem mesmo degens e nativos de DeFi compreendem totalmente”, disse Teddy Pornprinya, cofundador do protocolo de ativos do mundo real Plume.
Um episódio recente ilustra o risco. A falência da First Brands Group em 2025 afetou uma estratégia de crédito privado da Fasanara Capital. Uma versão tokenizada do fundo (mF-ONE), emitida na plataforma Midas RWA e utilizada como colateral no protocolo Morpho, sofreu queda de 2% no valor patrimonial líquido — empurrando tomadores altamente alavancados para perto da liquidação.
O que observar
O mercado de crédito privado tokenizado ainda é pequeno, mas cresce rapidamente. Se fundos como o da BlackRock enfrentarem uma onda de resgates desordenada, o efeito cascata pode atingir tanto o mercado tradicional quanto o DeFi — e o Bitcoin, cotado a US$ 68.800 no momento desta publicação, já sente a pressão.
Para investidores de crypto, o recado é claro: acompanhar o que acontece no crédito privado tradicional nunca foi tão importante para entender os riscos do mercado digital.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





