Como as criptomoedas se encaixam nos modelos de risco tradicionais? O bitcoin pode servir como proteção confiável contra a inflação? Até que ponto a exposição corporativa às criptomoedas afeta o valor da empresa? Como o mercado de criptomoedas influencia o comportamento do investidor de varejo no mercado de ações? E como a adição de criptomoedas a portfólios diversificados afeta o desempenho da carteira? Esses são os temas de cinco artigos de alunos da Fundação Getulio Vargas (FGV) que buscam responder, com pesquisa acadêmica, questionamentos que gestores e investidores de criptoativos geralmente se fazem.
Abaixo, estão resumos dos resultados das pesquisas, que estão no ebook “Criptofinanças Avançadas – Estratégias e Medidas de Risco para Investidores e Gestores“, lançado ontem (13) no 1º Blockchain Day FGV. Os estudos fazem parte da Iniciativa de Pesquisa em Blockchain para Universidades (UBRI) da Ripple, uma ação global lançada em 2018 e da qual a Escola de Economia de São Paulo (EESP) da FGV participa. Num mercado tão novo, faltam estudos acadêmicos, algo que começa a aparecer com mais frequência, mas ainda em volume aquém do necessário.
“O ebook é importante porque dissemina pesquisas feitas na FGV EESP para um público mais amplo, não necessariamente acadêmico. Esperamos que fomente mais pesquisas na área e balize decisões de investidores, gestores, ou qualquer outra parte interessada no assunto. Buscamos integração com o mercado e queremos nos posicionar como um centro de referência em estudos relacionados a blockchain e seus casos de uso, por isso o ebook é parte fundamental dessa estratégia”, disse ao Blocknews o líder do projeto com a Ripple e Coordenador de Ensino e Apoio Pedagógico do Mestrado da Faculdade, Jéfferson Colombo, que também orienta alguns dos alunos.
Criptos e risco
No artigo “O bitcoin é um hedge contra a inflação? Evidências empíricas a partir de surpresas nos anúncios do CPI e do PCE”, o mestrando Harold Rodriguez buscou analisar o efeito de curto prazo dos choques inflacionários no preço do bitcoin para avaliar se a cripto vale como proteção contra as altas de preços. Para isso usou o que chama de “surpresas” entre os índices de inflação CPI e Core PCE dos EUA e o que os analistas esperavam.
Tomando como base dados de agosto de 2010 e janeiro de 2023 dos preços do bitcoin e do ouro, dos índices S&P500 e VIX, do rendimento dos títulos do Tesouro americano de um ano e do componente inflacionário não antecipado, a conclusão é a de que “os retornos do bitcoin aumentam significativamente após um choque inflacionário positivo, corroborando a evidência empírica que sugere que o bitcoin pode ser um hedge útil contra a inflação”.
Porém, o autor alerta que pode haver variações por fatores como índices usados, períodos analisados, contexto econômico e adoção institucional do bitcoin. A partir de 2020, na pandemia da Covid-19, o bitcoin teve comportamento mais próximo dos ativos de risco tradicionais, perdendo capacidade de servir de hedge inflacionário. Ouro e imóveis, por exemplo, foram mais resilientes.
Criptomoedas em carteiras multiativos
Bitcoin é a estrela do mercado cripto, mas as carteiras que têm variedade de moedas digitais são mais recomendadas quando o assunto é melhorar o retorno ajustado ao risco em portfólios brasileiros. De acordo com o artigo “O impacto de criptomoedas na performance de diversificação a partir da inclusão de criptoativos”, o mestrando Oswaldo Donattelli Filho afirma que os resultados são consistentes com evidências nos EUA, Europa e China.
O estudo considerou cinco tipos de portfólios. Um deles é com ativos tradicionais. Os outros quatro têm sempre esses ativos e mais uma variação: um índice de oito criptos (CriptoBasket), bitcoin, criptoativos alternativos (Altcoins) e stablecoins. Essa última categoria, que incluiu os ativos tradicionais e as stablecoins, foi o que teve o pior desempenho. Os melhores resultados foram das categorias CriptoBasket e Altcoins.
Mas, ele mesmo alerta que a pesquisa considerou “um período específico, com condições peculiares de mercado. Os criptoativos, apesar dos regimes de alta e baixa, tiveram retornos médios elevados no período, o que não deve se repetir em horizontes longos de tempo”.
Ações x criptoativos
Alguns movimentos do mercado mostram que os criptoativos começam a ser vistos como ativos convencionais por parte dos investidores brasileiros. O doutorando Matheus Brito analisou dados dos investidores de ações de varejo de 2012 a 2018 e descobriu que o volume de negociação nesses ativos diminuiu de 5,1% a 7,9% durante períodos nos dias em que bitcoin estava em destaque, sugerindo que a atenção vai para os ativos digitais.
Em seu artigo “Distracted by Crypto” (Distraído pela cripto, na tradução livre) essa tendência foi mais forte entre os investidores mais jovens e aqueles em profissões relacionadas a blockchain. Os resultados foram validados com os de negociação de varejo dos EUA.
Mas, de 2019 a 2022, quando as criptomoedas ficaram mais populares, o efeito de distração foi menor, “consistente com a percepção delas como um ativo convencional”. Para o autor, “a crescente integração das criptomoedas em portfólios tradicionais marca uma nova fase na evolução dos ativos digitais, mostrando que os investidores de varejo estão começando a tratá-los como parte de uma estratégia de investimento diversificada, e não apenas como um empreendimento temporário e de alto risco”.
Exposição a cripto por empresas
Pode parecer bem moderninha a empresa que anuncia a compra de criptoativos. Mas o quanto isso afeta suas ações varia e um dos motivos é a quantidade adquirida. É o que mostra o artigo “Store of value or speculative investment? Market reaction to corporate announcements of cryptocurrency acquisition” (Reserva de valor ou investimento especulativo? Reações do mercado a anúncios de empresas sobre aquisição de criptomoedas, na tradução livre)”, do mestrando André Dias Gimenes. O estudo considerou 32 empresas não ligadas a blockchain ou cripto de seis países.
No geral, a pesquisa mostra que a reação do mercado aos anúncios de compra de criptos por empresas tradicionais tende a ser levemente positiva. Mas, em muitos casos não têm significância estatística. Na média, “o mercado mantém uma postura cautelosa diante dessas aquisições, possivelmente devido à volatilidade associada aos criptoativos e ao desconhecimento sobre o impacto real dessas moedas no longo prazo”. A MicroStrategy foi a que apresentou a melhor relação investimento / capitalização de mercado.
Porém, “na análise segmentada pelo grau de exposição da firma a criptoativos, os resultados indicam que o tamanho da exposição é um fator crucial para entender como se dá a reação do mercado acionário. Especificamente, o impacto positivo nas ações se concentra nas empresas com maior exposição a a criptoativos”. Esse é um dado que investidores em ações devem considerar ao analisarem quais comprar. Em empresas, como as de tecnologia, onde a inclusão de criptoativos é vista como uma extensão natural de suas atividades a reação é mais positiva. E quando os investimentos em cripto são modestos ou simbólicos, as reações tendem a ser neutras ou até adversas.
Estimativa de riscos
No artigo “Estimation risk in conditional expectiles” (Risco de Estimação em Expectis Condicionais, na tradução livre), o doutorando Victor Henriques busca a melhor forma de avaliar o risco de cauda em criptoativos. Isso quer dizer calcular a probabilidade de riscos extremos, como o colapso de uma cripto ou do mercado, que tenham impactos graves ou imprevisíveis. Ele concluiu que a melhor ferramenta é a expectis condicionais, que conseguem capturar melhor esses eventos.
Com essa metodologia, a pesquisa mostra que “as oscilações extremas nesses ativos não são apenas frequentes, mas também intensas. Isso confirma a relevância da ferramenta que não apenas identifica os riscos, mas também permite a adaptação rápida a eventos inesperados, o que pode ser essencial para mitigação de perdas”.”
Assim, o autor recomenda que os gestores de portfólios usem essa ferramenta para calcular reservas de caixa mais precisas. Ao mesmo tempo, evitam exposições excessivas. Para investidores, “ajuda a evitar surpresas indesejadas em momentos de extrema oscilação de preços”.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





