Entrevistamos Rodrigo Batista, fundador da Digitra.com: “O mercado cripto vai crescer mais de mil de vezes ainda”

Rodrigo Batista Digitra

Rodrigo Batista tem uma longa história de empreendedorismo. Fundou e conduziu a exchange Mercado Bitcoin por 6 anos, é sócio de outras startups financeiras, e é o único brasileiro que teve projetos aprovados nos três sandbox regulatórios brasileiros.

Agora é CEO e fundador da exchange Digitra.com, primeira startup de cripto que tem a bolsa americana Nasdaq como parceira de tecnologia. Nesta entrevista Rodrigo compartilha sua visão sobre o mercado de criptomoedas e as oportunidades que estão surgindo nos próximo anos.

Como foi sua trajetória no mercado de criptoativos desde a criação do Mercado Bitcoin, até a Digitra.com

Comecei a programar softwares aos 12 anos e me formei em tecnologia no ensino médio. Depois, estudei administração de empresas na USP, fiz uma pós em engenharia financeira e agora faço um curso para empreendedores em Harvard chamado OPM.

Do lado profissional, trabalhei no mercado financeiro tradicional por 18 anos em corretoras, na bolsa e em bancos de investimentos.

Essa experiência de finanças e tecnologia me fez entender o Bitcoin bem cedo, ainda  em 2011. Em 2012 fiz minha primeira negociação, quando comprei 14 bitcoins por 4 dólares cada um, de um empresário dos EUA. No mesmo ano comecei a desenhar o projeto de uma exchange de criptomoedas, plano esse que culminou com a criação do Mercado Bitcoin. Fui o fundador, acionista controlador e CEO da exchange da fundação em 2013 até minha saída no fim de 2018, quando vendi minha parte da empresa que era a líder de mercado.

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Após a saída, trabalhei na criação de outras startups, várias delas no mundo cripto e consegui ter projetos aprovados nos Sandbox da CVM (Estar.Finance), Susep (88i) e BACEN (nTokens). Em 2019, comecei a criação de uma nova exchange que atende clientes de todo o planeta , a Digitra.com.

O que você pensa do status atual do mercado de criptoativos?

Tenho uma leitura particular do momento atual e também de para onde vamos.

Para explicar como penso, gosto de fazer um paralelo com o desenvolvimento da internet.

A internet comercial começou em 1983, e em 1996 foi o IPO da Netscape, sensação da época, mas que não existe mais.

Por volta de 1996, alguns serviços começaram a ganhar destaque, como por exemplo a Amazon com a venda de livros. As empresas desta época tinham uma coisa em comum: eram adaptações para internet de modelos de negócios que já existiam, como as livrarias.

Somente cerca de 15 anos depois que a internet virou nossas vidas de cabeça pra baixo criando novos hábitos de consumo antes impensáveis por meio de empresas como Tinder, Uber, AWS ou iFood.

Com a inovação dos ativos digitais vejo a mesma sequência, mas ainda estamos na fase de adaptar o mundo que conhecemos para o mundo cripto. O que se faz hoje é pegar coisas que já existem e dar marteladas para que se encaixem nas novas tecnologias. E a isso se dá nomes chiques: antes era blockchain, hoje é tokenização.

Acredito que estamos entre 5 e 10 anos do momento Uber da tecnologia crypto, em que veremos novos modelos de negócios que simplesmente não conseguimos pensar hoje assim como não era possível imaginar o Uber.

Hoje, a maior parte da inovação está vindo de sistemas descentralizados, mas tenho uma visão de que estes softwares acabarão sendo cooptados por estruturas centralizadas, seja por força de regulação ou por que a centralização traz comodidade e facilidade de uso para os clientes.

Em resumo, ainda estamos na década de 90 do mundo cripto. O mercado cripto vai crescer mais de mil de vezes ainda na próxima década.

Falando em tokenização, muita gente no mercado está dizendo este é o grande caso de uso de ativos digitais e blockchain, qual a sua visão disso?

Transformar coisas que já existem em tokens é um dos usos mais óbvios da tecnologia e isso não é novidade. Ainda em 2012 já se trabalhava com a tokenização de ativos na rede Bitcoin com as chamadas “colored coins”.

Acredito que esta seja uma etapa natural do processo de entender o potencial do que foi criado pelo Satoshi Nakamoto ao criar o Bitcoin. Mas estamos longe de realmente criar soluções inovadoras e inéditas para o público final.

Acho que a maior parte deste movimento de tokenização é espuma para vender consultoria, como foi a febre do blockchain há 2 ou 3 anos. Mas provavelmente disso sairá aquele 1% de inovação legítima que pode mudar nossas vidas.

No Brasil, já existe uma regulação do mercado de criptomoedas, aprovada no ano passado. Nos EUA,  há uma grande pressão dos órgãos locais contra as empresas do setor. O que você acredita que pode acontecer com a regulamentação deste mercado?

A discussão sobre as regras do mercado cripto acelerou praticamente no mundo todo, muito por conta da queda da exchange FTX, e muitas vezes está sendo feita tendo este caso como catalisador e não deveria ser assim.

A regulação adequada do mercado cripto é a oportunidade de uma geração. Ela pode criar equivalentes ao vale do silício nos países que criarem regras que incentivem a inovação.

No próprio caso da FTX mesmo, é possível ver o quanto a regulação do mercado japonês preservou o interesse dos consumidores e instituições no países, sem prejudicar a criação de corretoras.

Um ponto relevante para os reguladores é que com o trabalho remoto é muito fácil e está ficando cada vez mais barato operar uma empresa de tecnologia a partir de qualquer país no mundo. Então os países que não regularem com o viés de incentivar a inovação e o empreendedorismo vão perder muitos de seus profissionais e recursos financeiros para países mais competitivos.

Na verdade, já vejo isso acontecer todos os dias. Hoje no Brasil já é possível ver vários exemplos de empreendedores e empresas cripto que optaram por ir para lugares com leis mais favoráveis para atender seus clientes.

Aprofundando sobre a sua nova exchange, a Digitra.com. Por que criar uma exchange agora com um mercado tão competitivo, com preços em queda e incerteza regulatória?

O mercado de ativos digitais ainda está na sua infância e precisa de soluções robustas. Vimos que existe uma demanda por exchanges que sejam globais e de alta liquidez,  com governança e compliance de alto nível e com tecnologia que se adapte a velocidade gigante do mercado.

A história está cheia de casos de sucesso que foram criados justamente durante momentos de crise. Pra ficar em exemplos muito grandes, é o caso da Microsoft, Airbnb e Instagram, por exemplo. Os momentos de crise nos permitem ser mais criativos, controlar melhor os custos e nos guiar menos para o que está acontecendo no mercado e mais para o que os clientes precisam.

Vejo também que o mercado cripto é muito parecido com outros mercados de tecnologia, como o de redes sociais ou computação em nuvem, por exemplo. Ele tende a ser dividido por empresas globais que se adaptam aos mercados locais.

Podemos perceber este exemplo no próprio mercado brasileiro. Quando vendi minha exchange anterior, éramos líderes de mercado e tínhamos mais da metade do mercado. Hoje mais da metade do mercado está nas mãos de empresas globais.

Penso também que o mercado ser maduro e competitivo não é razão para não inovar. Temos como exemplo os bancos que dominaram o mercado financeiro brasileiro durante muito tempo, e muito rapidamente novas corretoras e bancos digitais criaram soluções relevantes para os clientes que em menos de 10 anos se tornaram tão grandes quanto os bancos quase centenários.

Quem você enxerga como concorrentes e como você quer se diferenciar deles?

Queremos ocupar uma parte do mercado das exchanges globais de cripto como Coinbase e Binance. Mas ainda estamos no início da jornada e não somos concorrentes deles de nenhuma forma.

Para nos diferenciar, temos um time experiente que está trabalhando muito nas experiências do aplicativo, do site, do OTC e das APIs.

Criamos muitas coisas que o público está começando a entender, está experimentando e gostando da experiência.

Primeiro, temos taxa zero para todas as negociações de compra e venda de qualquer cripto ativo na plataforma. Fomos a primeira exchange global a fazer isso. Também temos seguro para as criptomoedas dos clientes. Hoje ninguém oferece isso no Brasil e poucos oferecem no mundo.

Criamos um token próprio, chamado DGTA. Os mil primeiros clientes que fizeram o cadastro completo conosco ganharam 200 tokens. Agora estamos distribuindo 100 destes tokens até o cliente número 10 mil. Ganham tokens também todos que operam na plataforma. Todos os dias distribuímos 15 mil tokens entre todos. Então tem clientes que negociam uma vez por dia apenas para ganhar os tokens. Chamamos este incentivo de Trade to Earn.

Com minha experiência no universo financeiro e cripto, conseguimos criar uma arquitetura que nenhuma outra exchange no mundo tem; recebemos um aporte de 5 milhões de dólares do presidente do conselho do Itaú na América Latina, o Ricardo Marino, guardamos as criptomoedas na maior empresa de guarda do mundo chamada Fireblocks.

E também a cereja do bolo, que é sermos a primeira exchange no mundo a fechar uma parceria com a NASDAQ para utilizá-los no ambiente de negociação. Tenho muito orgulho do que estamos construindo.

A Nasdaq é possivelmente a principal marca quando se fala da intersecção do mercado financeiro com tecnologia. Como foi a negociação de um brasieiro com eles e porque te escolheram para entrar na tecnologia de negociação de ativos digitais?

Criei o plano da Digitra.com no curso OPM. A partir daí comecei a falar com pessoas e potenciais parceiros e a Nasdaq foi um dos primeiros, mas foi um processo longo. Eles queriam se certificar de que eu sou uma pessoa séria, de que o plano de negócios era consistente, afinal é a marca deles envolvida pela primeira vez em um mercado tão polêmico.

Eles elevaram bastante a régua em termos de cobrar soluções reais para os problemas que eu trouxe. Pediram garantias de que seríamos um mercado sem manipulação e com um nível de segurança e governança o que nos levou a criar sistemas e processos que pouquíssimas empresas de cripto tem.

Hoje eles são nosso parceiro que fornece a tecnologia que faz o encontro das operações de compra e venda (chamado tecnicamente de matching engine) e temos aprendido demais com eles sobre como operar um mercado sólido.

Rodrigo Batista Digitra

Como está a Digitra.com hoje no mercado? Ela está conseguindo atingir o público global como da forma que você desejou?

Lançamos para o mercado há 6 meses. No início os clientes podiam negociar apenas por um aplicativo bem limitado, mas hoje ele já está bem melhor e nesta semana estamos lançando o site para negociações as APIs para clientes operarem por meio de robôs.

Nosso token DGTA vai passar a ser negociado em Maio e tem tido uma demanda internacional alta, o que nos fez criar um processo de pré-venda para esse público externo. Temos um executivo cuidando apenas disso.

Nosso aplicativo já foi baixado em quase todos os países do mundo, mais de 20 mil vezes. Hoje os clientes vêm principalmente do Brasil, Turquia, Nigéria e Bangladesh, mas geograficamente estão bem espalhados. Mesmo com o mercado ruim, temos visto ótimos resultados após o lançamento e provamos que é possível ser competitivos em escala global a partir do Brasil.



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