A polícia da Coreia do Sul abriu a primeira investigação criminal do país contra usuários locais do Polymarket por suspeita de apostas eleitorais ilegais. O caso amplia o risco regulatório para mercados de previsão cripto e mostra que alguns países já saíram do bloqueio de plataformas para mirar usuários.
A Coreia do Sul abriu uma investigação criminal contra usuários locais do Polymarket, em um movimento que pode marcar uma nova fase de pressão regulatória sobre mercados de previsão baseados em cripto. Segundo reportagens do Cointelegraph e da CryptoSlate, a apuração mira residentes que teriam apostado em resultados das eleições locais sul-coreanas de 3 de junho.
O caso é relevante porque muda o foco da fiscalização: em vez de apenas bloquear sites ou exigir licenças das plataformas, as autoridades sul-coreanas estariam rastreando transações em cripto para identificar usuários individuais. Para um setor que cresceu justamente com stablecoins, carteiras digitais e acesso global, esse é um alerta direto sobre o limite entre mercado financeiro, aposta e produto cripto.
O que a polícia sul-coreana investiga
De acordo com o Cointelegraph, a investigação é conduzida pela Polícia Provincial de Gangwon a pedido da Agência Nacional de Polícia da Coreia do Sul. A suspeita é de violação do Artigo 246 da lei criminal sul-coreana, que trata de jogos de azar e apostas habituais não autorizadas.
Usuários identificados podem enfrentar multas de até 10 milhões de won, cerca de US$ 6.500. A lei local permite apenas plataformas autorizadas para apostas, como o Sports Toto, enquanto mercados eleitorais e políticos em plataformas não licenciadas podem ser enquadrados como jogo ilegal.
A CryptoSlate acrescenta que a investigação teria como alvo apostas ligadas às eleições locais de 3 de junho e que a polícia estaria usando registros de transações cripto para mapear participantes. Um mercado resolvido sobre a eleição para a prefeitura de Seul teria movimentado US$ 52,2 milhões, volume suficiente para chamar atenção das autoridades.
Por que isso importa para o Polymarket
O Polymarket permite que usuários negociem probabilidades de eventos reais usando infraestrutura cripto. Na prática, o usuário compra posições que pagam conforme o resultado de um evento político, esportivo, econômico ou cultural. O problema é que reguladores ao redor do mundo discordam sobre como classificar esse produto: derivativo, ferramenta de previsão, aposta ou jogo de azar.
Essa disputa já apareceu em outros mercados. O CriptoBR mostrou recentemente que o Brasil fechou o cerco a Polymarket e Kalshi, enquanto a Espanha bloqueou Polymarket e Kalshi por falta de licença. Nos Estados Unidos, o debate também avançou após o Congresso mirar Polymarket e Kalshi por suspeitas de insider trading.
O ponto sensível é que os mercados mais populares costumam envolver política, esportes e eleições, justamente as categorias que mais incomodam reguladores. Segundo a CryptoSlate, esportes, política e cripto responderam por cerca de 90% do volume global recente em Kalshi e Polymarket, o que torna difícil separar o produto em uma camada “financeira” limpa e outra tratada como aposta.
Fiscalização pode sair do site e chegar ao usuário
A Coreia do Sul é um mercado importante para cripto. O país aparece entre os maiores em adoção global no índice da Chainalysis citado pela CryptoSlate, e tem uma base ativa de investidores de varejo. Por isso, uma investigação voltada a usuários pode pesar mais do que um simples bloqueio de domínio: ela cria risco jurídico direto para quem acessa plataformas por carteiras, stablecoins ou rotas alternativas.
O caso também pressiona a narrativa de que mercados de previsão cripto são neutros por serem globais e on-chain. Se autoridades conseguem rastrear transações, convocar usuários e aplicar multas locais, a liquidez internacional continua existindo, mas com custo regulatório maior para participantes em jurisdições restritivas.
Para plataformas como Polymarket, o cenário provável é uma bifurcação: contratos econômicos e financeiros podem buscar enquadramento regulado, enquanto mercados de política, eleições e esportes tendem a enfrentar bloqueios, exigências de KYC e fiscalização mais agressiva. A Coreia do Sul acaba de mostrar que essa pressão pode chegar também ao outro lado da tela.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





