O Governo do Ceará recebeu uma proposta para estruturar um Sistema de Créditos Hídricos voltado à monetização de ganhos reais de eficiência no uso da água. A ideia foi apresentada pela CearaPar à Casa Civil do Governo do Estado do Ceará e busca transformar operações como dessalinização, reúso e captação de chuva em ativos digitais do tipo RWA, com rastreabilidade e regras de validação para evitar fraudes e dupla contagem.
A proposta parte do princípio de que a água poupada, ou efetivamente adicionada ao sistema de abastecimento por soluções técnicas, pode ser medida, verificada e convertida em créditos. Esses créditos seriam registrados em um livro razão distribuído, com histórico público e auditável de origem, propriedade e transações. Na prática, o sistema tenta dar forma de mercado a um mecanismo voluntário no qual empresas que investem em eficiência hídrica passam a ter um instrumento para capturar valor adicional, enquanto o Estado fortalece a governança e o monitoramento.
Segundo a apresentação institucional, a diretora-presidente Luiza Martins levou o projeto ao assessor especial de Inovação Antônio Gomes Vidal, destacando o papel da companhia como articuladora técnica na estruturação de iniciativas estratégicas e na conexão entre órgãos públicos. A proposta também se ancora na promessa de maior segurança jurídica, ao padronizar a medição, a validação e a emissão de créditos com base em registros imutáveis.
Como funcionaria o Sistema de Créditos Hídricos
O desenho descrito prevê que créditos sejam gerados a partir de eficiência hídrica comprovada. Isso inclui a economia obtida por reúso industrial, a água produzida por dessalinização, ou o volume captado e utilizado de forma a aliviar o sistema tradicional. O passo central é a validação técnica do ganho, antes de qualquer emissão. Nesse arranjo, a Cogerh aparece como validadora, atestando a economia real ou o incremento efetivo antes da criação do ativo digital correspondente.
A integridade do registro seria sustentada pela plataforma da parceira Hypercube, que armazenaria o histórico de cada metro cúbico convertido em crédito, com trilha completa de auditoria para reduzir risco de contabilização duplicada e reforçar a confiança do mercado. O modelo se posiciona como um mecanismo de transparência operacional e financeira, já que cada etapa fica registrada com data, autoria, critérios e evidências.
Financiamento perpétuo e retorno para infraestrutura
Um ponto que chama atenção no desenho divulgado é o mecanismo de reinvestimento vinculado às transações. A proposta menciona uma regra em que uma parcela fixa de cada negociação do ativo é direcionada para financiar infraestrutura de segurança hídrica no estado. A lógica é criar um ciclo em que o mercado voluntário, ao movimentar créditos, gere recursos recorrentes para obras e melhorias reais, conectando instrumento financeiro e política pública de forma mais direta.
Articulação institucional e apoio técnico
O avanço do projeto envolve um grupo de trabalho com órgãos estaduais e parceiros. Entre os participantes citados estão a Secretaria de Recursos Hídricos (SRH), a Secretaria do Meio Ambiente (SEMA) e a Secretaria da Fazenda (SEFAZ-CE), além do apoio da UNIDO. O objetivo dessa composição é dar lastro técnico e institucional ao modelo, alinhando critérios de medição, governança, tributação e responsabilidade regulatória.
Estratégia de comunidade para acelerar adesão e confiança
Nosso especialista em crescimento de comunidade recomenda tratar o Sistema de Créditos Hídricos como um ecossistema, não como um produto pronto. A estratégia sugerida começa por formar um grupo âncora com indústrias e operadores que já fazem reúso ou dessalinização, priorizando poucos casos com dados de alta qualidade. Em seguida, publicar um “livro de regras” simples, com linguagem acessível, explicando como medir, validar e emitir créditos, e abrir um canal contínuo de transparência com relatórios periódicos de volumes validados, créditos emitidos e destino do reinvestimento em infraestrutura. O último passo é estruturar uma rede de validadores e parceiros locais, com treinamento e critérios claros, para que a confiança não dependa de um único ator e o sistema consiga escalar mantendo credibilidade.
Ao levar a proposta à Casa Civil, o Ceará sinaliza uma tentativa de unir governança pública, medição técnica e tecnologia de registro distribuído para dar valor econômico à eficiência hídrica. Se a validação for rigorosa e a regra de reinvestimento se traduzir em obras visíveis, o sistema pode se tornar um modelo replicável para regiões que enfrentam estresse hídrico. O desafio central será equilibrar inovação financeira com critérios técnicos sólidos, garantindo que cada crédito represente água real e benefício real para a segurança hídrica do estado.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





