A leitura dominante de mercado nos últimos ciclos era simples: quando a liquidez global melhora, o Bitcoin tende a respirar. Só que, no fim de 2025, essa relação parece ter enfraquecido justamente num momento em que deveria aparecer com mais clareza.
Em 10 de dezembro de 2025, o Federal Reserve voltou a cortar juros e, no mesmo dia, sinalizou o início de compras de Treasury bills a partir de 12 de dezembro para gestão de reservas e liquidez de curto prazo.
Ainda assim, a reação do Bitcoin não seguiu o roteiro que muitos tratavam como “quase automático”.
O ponto central: isso nunca foi fundamento, foi regime
A correlação com liquidez não é uma propriedade do protocolo do Bitcoin. Ela descreve um regime de precificação que funciona enquanto o canal de transmissão está aberto e favorável.
Hoje, esse canal passa muito mais por posicionamento institucional, ETFs, derivativos e gerenciamento de risco global do que por narrativa pura. Quando esse fluxo vira o vendedor marginal, a liquidez sistêmica pode até melhorar sem que o Bitcoin responda no curto prazo.
O choque de outubro e a memória de risco
O que reforçou esse comportamento foi o episódio de outubro. No dia 10 de outubro de 2025, um anúncio de novas tarifas dos EUA contra a China sacudiu mercados e elevou a aversão a risco.
ReutersNa sequência, houve um movimento forte de desalavancagem em cripto. Reportagens sobre o período apontaram um evento de liquidação relevante em torno de 10 e 11 de outubro e uma perda acumulada de mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado desde o início de outubro.
Quando a prioridade vira proteção, o investidor tende a cortar primeiro aquilo que tem volatilidade de cauda, e nesse regime o Bitcoin está sendo tratado como “risco”, não como hedge macro.
Por que o ouro “segurou melhor” nessa leitura
Em cenários de fragmentação e incerteza, o ouro costuma ter demanda mais estrutural como reserva defensiva. Já o Bitcoin, neste momento, está sendo precificado como beta alto, mais próximo de tecnologia em modo risco do que de proteção clássica. Isso explica o descasamento entre os dois ativos sem precisar recorrer a teorias conspiratórias.
O que pode decidir 2026
Se esse regime vira definitivo ou não depende de variáveis bem objetivas:
se fluxos institucionais e via ETFs estabilizam ou seguem pressionando
se as condições financeiras afrouxam e o Bitcoin volta a reagir, ou permanece travado
se a volatilidade de cauda cai e o mercado para de precificar liquidações como evento recorrente
A estratégia de comunidade para lidar com a quebra de narrativa
Na visão do nosso especialista em crescimento de comunidade, Oliver e Alexandre, o maior risco não é só o preço, é a confusão de expectativa: muita gente entrou acreditando em “reflexo da liquidez” como verdade permanente.
A estratégia aqui é trocar hype por alfabetização de risco:
criar conteúdos curtos e recorrentes explicando regimes, correlação e por que “canal de fluxo” manda mais que narrativa
padronizar checklists simples sobre alavancagem, LTV, liquidações e gestão de exposição
abrir espaço para transparência sobre incerteza, porque comunidade madura cresce quando entende limites, não quando recebe promessa
O que está em jogo não é o Bitcoin “perder fundamento”, e sim o mercado mudar o filtro com que precifica o ativo. Se a liquidez global melhora e o BTC não acompanha, isso sugere uma fase em que ele está sendo tratado como risco global de alta volatilidade. Se esse regime persistir em 2026, o papel do Bitcoin em portfólio fica menos associado a proteção macro e mais a gestão de drawdown como qualquer ativo de risco.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





