O Bitcoin ultrapassou a marca de US$ 73.000 nesta quarta-feira (4), acumulando alta de 8% nas últimas 24 horas e 11% na semana. O movimento reverteu semanas de pessimismo e reacendeu o debate: estamos diante de uma nova fase de alta ou é apenas mais uma armadilha para compradores atrasados?
US$ 1,7 bilhão em ETFs spot: o dinheiro institucional voltou
Após meses de saídas constantes — cerca de US$ 9 bilhões em resgates acumulados desde outubro —, os ETFs de Bitcoin spot nos Estados Unidos registraram uma virada significativa. Desde 24 de fevereiro, investidores aportaram aproximadamente US$ 1,7 bilhão nos fundos, segundo dados do analista James Seyffart, da Bloomberg Intelligence.
“Foi surpreendente que basicamente não houve compra na queda quando o Bitcoin estava despencando no início do ano”, disse Seyffart. Agora, ele acredita que a recente ação de preço restaurou a confiança dos investidores.
O iShares Bitcoin Trust (IBIT), da BlackRock, adicionou cerca de US$ 300 milhões em capital no acumulado de 2026, mesmo com queda de 4% no período. Para Nate Geraci, presidente da ETF Store, isso reflete convicção genuína: “Vejo mais como a firma dobrando a aposta de que o Bitcoin pertence a portfólios diversificados.”
Analista da Clear Street: “essa alta tem fundamento”
Owen Lau, analista da Clear Street, publicou nota nesta quarta afirmando que a queda de 44% entre outubro e fevereiro pode ter representado o fim do ciclo de baixa. “A indústria pode ter atingido um ponto de inflexão, e acreditamos que essa alta tem fundamento”, escreveu.
Lau apontou três catalisadores convergentes:
- Avanço regulatório: a intervenção do presidente Trump na terça-feira em favor do CLARITY Act aumenta as chances de aprovação da lei até o verão americano. O JPMorgan já havia indicado que essa legislação poderia ser o gatilho que o mercado precisava.
- Integração institucional: a subsidiária bancária da Kraken obteve uma conta master no Federal Reserve — um marco inédito para uma empresa cripto, representando integração estrutural com o sistema financeiro tradicional.
- Adoção crescente: o Morgan Stanley indicou a Coinbase Custody como co-custodiante em seu proposto ETF de Bitcoin spot, reforçando o papel da Coinbase no ecossistema institucional.
Efeito Coreia: a conexão inesperada
Outro fator que pode estar alimentando o rally é o colapso do mercado acionário sul-coreano. O índice Kospi despencou 20% nos últimos dois pregões, após uma alta de 180% desde abril de 2025 impulsionada por investidores de varejo. Com as ações em queda livre, parte desse capital especulativo pode estar migrando para criptomoedas.
O chamado “prêmio Kimchi” — a diferença de preço do Bitcoin nas exchanges coreanas — permanece próximo de 1%, indicando aumento de atividade, mas sem atingir níveis de euforia especulativa.
Nem todos estão convencidos
Apesar do otimismo, parte do mercado mantém cautela. Traders apontam para a pesada oferta acima dos US$ 72.000 e para o posicionamento em derivativos como riscos potenciais. Alguns sugerem que um rali até a faixa de US$ 72.000 a US$ 76.000 poderia atrair vendedores em vez de confirmar uma tendência de alta duradoura.
Dados on-chain mostram um “air pocket” — zona de pouca resistência — acima dos US$ 72.000 que poderia levar o preço rapidamente a US$ 80.000. Mas a mesma falta de liquidez que facilita a subida também pode acelerar uma queda brusca caso o sentimento mude.
O que observar nos próximos dias
A resistência dos US$ 75.000 é o próximo teste técnico relevante. Se o Bitcoin conseguir se manter acima desse patamar com volume consistente, o cenário de retomada de alta ganha força. Caso contrário, a tese da “armadilha de alta” volta à mesa.
Observamos que o mais significativo deste movimento não é necessariamente o preço, mas o perfil dos compradores. São fluxos direcionais — apostas genuínas na valorização — e não estratégias neutras de arbitragem. Quando o dinheiro institucional volta com convicção, o mercado tende a ouvir.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





