O Bitcoin (BTC) perdeu o suporte de US$ 70.000 nesta quinta-feira (19), recuando para US$ 69.500 em meio a uma tempestade perfeita de fatores macroeconômicos: o Federal Reserve manteve os juros inalterados em tom hawkish, o petróleo disparou com a escalada no Irã e baleias veteranas despejaram mais de US$ 100 milhões em BTC nas exchanges.
No momento da publicação, o Bitcoin era negociado a aproximadamente US$ 69.900, queda de cerca de 3% nas últimas 24 horas. O Ethereum (ETH) acompanhou o movimento e recuou 4,2% para US$ 2.138, enquanto BNB caiu 2,3% para US$ 641 e Solana (SOL) perdeu 2% a US$ 88,45.
Fed hawkish: só um corte de juros em 2026
O principal catalisador da queda foi a decisão do Federal Reserve na quarta-feira (18). O banco central americano manteve a taxa de juros na faixa de 3,50% a 3,75%, mas o tom foi mais duro do que o mercado esperava.
O chamado dot plot — gráfico que mostra as projeções dos membros do Fed para os juros — indicou que a mediana dos votantes projeta apenas um corte de juros em 2026, frustrando quem apostava em dois ou três cortes. Apenas dois membros do comitê mantiveram a projeção de dois cortes, e a própria projeção do presidente Jerome Powell foi revisada para cima.
“A narrativa de juros altos por mais tempo foi revigorada pela inflação persistente e pela sombra inflacionária dos custos energéticos crescentes, forçando investidores a abandonar seus sonhos de um ciclo rápido de afrouxamento”, disse Matt Mena, estrategista de pesquisa cripto da 21Shares.
No Polymarket e nos futuros de Fed Funds na CME, a probabilidade de apenas um corte de juros neste ano saltou para 80%, contra 62% de chance de dois a três cortes há um mês.
Petróleo explode: Brent a US$ 117 e Omã a US$ 150
Ao mesmo tempo, a guerra com o Irã escalou significativamente. O Irã atacou infraestrutura energética crítica no Golfo Pérsico após um ataque israelense ao campo de gás South Pars, fazendo o Brent subir para US$ 117 por barril — alta de mais de 6% em 24 horas. O crude de Omã disparou para US$ 150.
Os futuros de gás natural europeu acompanharam o movimento, subindo cerca de 25% para acima de US$ 78 por MWh. O spread entre o Brent e o WTI atingiu o maior nível desde 2013, sinalizando interrupções globais de oferta e pressões logísticas que complicam ainda mais o cenário inflacionário.
Baleias veteranas despejam US$ 117 milhões em BTC
Dados de blockchain rastreados pela Lookonchain mostram que pelo menos dois holders de longo prazo — chamados de OGs (original gangsters) — venderam juntos mais de 1.650 BTC, equivalente a aproximadamente US$ 117,87 milhões.
Uma baleia veterana que anteriormente já havia vendido 11.000 BTC adicionou mais 650 BTC ao seu despejo, enquanto outro OG com um estoque de 5.000 BTC se desfez de 1.000 BTC de uma só vez.
US$ 600 milhões liquidados e ETFs em saída
A queda provocou US$ 600 milhões em liquidações de posições alavancadas em 24 horas, com a maioria sendo posições compradas (longs). O open interest total de futuros caiu 5,6%, enquanto os futuros de ETH viram uma redução de 9% no OI — um sinal claro de fuga de capital.
Os ETFs spot de Bitcoin nos EUA, que vinham de sete sessões consecutivas de entrada totalizando US$ 1,16 bilhão, registraram na quarta-feira sua primeira saída líquida de US$ 129 milhões, segundo dados da CoinGlass.
As taxas de financiamento (funding rates) para BTC, ETH, BNB e SOL voltaram ao território negativo, indicando que apostas baixistas estão em alta demanda novamente.
Ponto positivo: Bitcoin supera ouro na crise
Em meio ao cenário negativo, um dado chamou atenção: o Bitcoin está superando o ouro nesta crise. Enquanto o BTC caiu cerca de 1% desde a meia-noite UTC, o ouro recuou 2% no mesmo período. A relação entre os dois ativos subiu 1%, e um Bitcoin agora compra aproximadamente 15 onças de ouro.
Analistas atribuem isso ao fato de o ouro estar sobrecomprado — com alta de 90% em um ano antes do conflito começar — enquanto o Bitcoin já havia corrigido 50% desde outubro, deixando-o em território de sobrevenda.
O que esperar
Com o petróleo em alta, o Fed em modo hawkish e as tensões geopolíticas escalando, o cenário de curto prazo para ativos de risco permanece desafiador. O índice de volatilidade implícita do Bitcoin (BVIV) saltou mais de 5% para 58,36%, encerrando uma semana de declínio.
No Deribit, os put skews de Bitcoin e Ethereum se fortaleceram, indicando preocupações elevadas com quedas adicionais. O nível de US$ 69.500 se mostrou como suporte imediato, enquanto analistas apontam US$ 72.000 como resistência relevante para qualquer tentativa de recuperação.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





