Bangkok — 15/09/2025 — Um dos maiores bloqueios bancários da história recente da Tailândia está levantando dúvidas sobre o futuro do sistema financeiro do país. No último fim de semana, autoridades e bancos comerciais congelaram cerca de três milhões de contas bancárias em uma ofensiva nacional contra golpes e esquemas de lavagem de dinheiro — mas o impacto foi sentido também por cidadãos inocentes, incluindo pequenos comerciantes e expatriados.
A ofensiva contra as “contas mulas”
A medida faz parte de uma campanha iniciada em agosto para combater os chamados “call center scams”, esquemas de engenharia social operados por redes criminosas ligadas à China. O objetivo foi atacar contas bancárias usadas como “mulas” para movimentar recursos ilícitos.
O Bureau de Investigação de Crimes Cibernéticos (CCIB) admitiu, no entanto, que comerciantes online e usuários comuns acabaram atingidos por engano. O Banco da Tailândia autorizou suspensões temporárias de até três dias, prorrogáveis para sete dias em investigações policiais.
Expatriados e comerciantes entre os mais afetados
Entre as queixas mais comuns estão estrangeiros residentes, que alegam ter sido desbancarizados sem aviso prévio. Muitos agora precisam apresentar dados biométricos pessoalmente nos bancos para liberar transações maiores, em uma tentativa de endurecer as regras de Conheça Seu Cliente (KYC).
Pequenos negócios também relatam prejuízos: alguns tiveram de suspender o uso de pagamentos por QR code, enquanto correntistas correm para sacar seus fundos com receio de novos congelamentos.
Bitcoin entra no centro da discussão
A repressão abriu espaço para críticas e comparações com criptomoedas.
“Obrigado, Banco da Tailândia, pelo marketing gratuito do Bitcoin”, ironizou o investidor Daniel Batten.
“Graças a Deus pelo Bitcoin”, escreveu Jimmy Kostro, do Thailand Bitcoin Learning Center.
Embora o uso de cripto para pagamentos seja proibido no país, a popularidade do Bitcoin como reserva de valor cresce em meio à insegurança bancária.
Debate sobre confiança e alternativas
A situação tailandesa escancara um dilema global: até que ponto os bancos podem agir para proteger cidadãos de golpes sem punir inocentes?
Críticos apontam a contradição de países restringirem criptoativos, mesmo quando bancos tradicionais já estiveram envolvidos em movimentações bilionárias de dinheiro ilícito. Só nos EUA, instituições financeiras chegaram a ser acusadas de lavar mais de US$ 300 bilhões em esquemas suspeitos.
Enquanto isso, o Banco da Tailândia negocia com o CCIB uma solução alternativa, que permita investigações eficazes contra golpistas sem gerar caos para correntistas regulares.
👉 O episódio reforça a percepção de que a confiança na infraestrutura financeira — seja tradicional ou digital — será cada vez mais um tema de debate entre cidadãos, governos e investidores.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





