As stablecoins estão no centro de uma tempestade regulatória que se intensificou nesta terça-feira (3). De um lado, Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, defende que emissores que pagam juros sobre saldos de clientes devem ser regulados como bancos. Do outro, o FATF (Grupo de Ação Financeira Internacional) publicou um relatório de 42 páginas alertando que stablecoins se tornaram o principal veículo para transações ilícitas no mercado cripto.
Os dois movimentos, embora independentes, apontam na mesma direção: o cerco regulatório sobre stablecoins está se fechando — e rápido.
Dimon vs. Armstrong: a batalha pelo CLARITY Act
Em entrevista à CNBC, Dimon abordou as tensões com Brian Armstrong, CEO da Coinbase, que retirou apoio ao CLARITY Act — projeto de lei em discussão no Senado dos EUA — um dia antes da votação no Comitê Bancário.
O argumento de Dimon é direto: se uma empresa mantém saldos de clientes e paga juros sobre eles, está funcionando como um banco. E, portanto, deveria cumprir as mesmas exigências — capital, liquidez, controles anti-lavagem e seguro de depósitos federais.
“Recompensas são a mesma coisa que juros. Se você está mantendo saldos e pagando juros, isso é banco. Você deveria ser regulado como banco.” — Jamie Dimon, CEO do JPMorgan
Dimon fez questão de separar dois conceitos: recompensas atreladas a transações (que bancos aceitariam como modelo legítimo) e juros sobre saldos depositados (que deveriam exigir licença bancária). Armstrong, por sua vez, já declarou que os bancos deveriam ser forçados a competir, não protegidos por barreiras regulatórias.
O CEO do JPMorgan também destacou que o banco já utiliza blockchain internamente — com tokens de depósito e processamento de pagamentos em sistemas de ledger distribuído. “Somos a favor da competição, mas precisa ser justa e equilibrada”, disse.
FATF: stablecoins dominam transações ilícitas
Do lado dos reguladores internacionais, o cenário é ainda mais preocupante. O FATF publicou nesta terça um relatório detalhado mostrando que stablecoins respondem pela maior parte das transações cripto ilícitas globalmente.
Os números são expressivos:
- Segundo a Chainalysis, stablecoins representaram 84% dos US$ 154 bilhões em volume de transações ilícitas com ativos virtuais em 2025
- A TRM Labs apontou que entidades ilícitas receberam US$ 141 bilhões em stablecoins em 2025, o maior nível em cinco anos
- Atividade relacionada a sanções respondeu por 86% dos fluxos cripto ilícitos
- O relatório cita atores do Irã e Coreia do Norte usando USDT para financiamento de proliferação e pagamentos transfronteiriços ligados a atividades sancionadas
O FATF alertou que transferências peer-to-peer via carteiras não custodiais representam uma “vulnerabilidade-chave”, já que ocorrem sem controles anti-lavagem de dinheiro. A entidade pediu que países imponham obrigações de compliance sobre emissores de stablecoins e considerem ferramentas como congelamento de carteiras e restrições em funções de smart contracts.
O mercado de US$ 300 bilhões sob o microscópio
Com o mercado de stablecoins ultrapassando US$ 300 bilhões em capitalização, a pressão vem de todos os lados. Bancos tradicionais querem garantir que novos concorrentes joguem pelas mesmas regras. Reguladores internacionais querem fechar brechas de compliance. E o Congresso americano debate até onde a inovação pode ir sem supervisão.
O ponto central do debate é: stablecoins que pagam rendimento são produtos bancários ou instrumentos cripto? A resposta a essa pergunta vai definir o futuro de empresas como Circle, Tether e dezenas de projetos DeFi que dependem de stablecoins como base de liquidez.
A Casa Branca já circula novas versões do texto legislativo, mas as indústrias bancária e cripto ainda não chegaram a um consenso. Enquanto isso, o FATF pressiona os países a agirem rápido antes que as brechas regulatórias se tornem sistêmicas.
O que muda para o investidor?
Para quem mantém parte do portfólio em stablecoins — seja em plataformas centralizadas ou protocolos DeFi — o cenário exige atenção. A tendência é de mais exigências de KYC, possível restrição de certas funcionalidades em smart contracts e, eventualmente, diferenciação regulatória entre stablecoins que pagam rendimento e as que apenas funcionam como meio de troca.
Protocolos DeFi que oferecem yield sobre stablecoins podem ser os mais afetados caso a visão de Dimon prevaleça no texto final do CLARITY Act. Por outro lado, uma regulamentação clara também pode trazer mais capital institucional para o setor — algo que o mercado de stablecoins vem buscando há anos.
O jogo está aberto, mas uma coisa é certa: a era das stablecoins sem supervisão está chegando ao fim.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





