O silêncio ocorreu após questionamentos feitos a partir de uma proposta associada ao Banco da Reserva da Índia para colocar na pauta da cúpula do bloco em 2026 um modelo de conexão entre moedas digitais emitidas por bancos centrais, as chamadas CBDCs, com foco em pagamentos internacionais mais rápidos e baratos.
A ideia indiana, segundo informações atribuídas a fontes familiarizadas com o tema, busca criar “pontes” entre sistemas nacionais para facilitar transações de comércio exterior e pagamentos ligados ao turismo. O movimento é apresentado como uma modernização da infraestrutura financeira entre países do BRICS e aparece no rastro de discussões anteriores sobre interoperabilidade de sistemas de pagamento entre membros do bloco.
No caso brasileiro, a discussão encosta diretamente no Drex, projeto do Banco Central para uma forma digital da moeda com diretrizes e testes voltados à digitalização de instrumentos financeiros e à inovação em serviços, em um desenho que costuma ser associado a uso no atacado e à tokenização de ativos sob regras do sistema financeiro. O BC mantém páginas e fóruns institucionais dedicados ao tema, mas não indicou, neste episódio específico, se pretende discutir integração internacional no âmbito do BRICS.
A ausência de posicionamento não é um detalhe burocrático. Interligar CBDCs exige decisões sobre padrões técnicos, governança, regras de compliance, proteção de dados, prevenção à lavagem de dinheiro, mecanismos de liquidação e gestão de risco cambial. Também envolve política externa e coordenação entre Tesouros, reguladores e bancos centrais. Mesmo quando há interesse comum, diferenças de maturidade tecnológica e de arcabouço regulatório tornam o cronograma incerto e sujeito a “projetos-piloto” longos antes de qualquer escala real.
Para o Brasil, o debate tem pelo menos três camadas. A primeira é econômica: reduzir fricções de pagamento pode baratear e acelerar operações com parceiros relevantes do BRICS. A segunda é estratégica: participar de um padrão internacional pode influenciar regras e evitar ficar preso a soluções externas. A terceira é reputacional: em um tema sensível, qualquer leitura de “atalho” para contornar moedas fortes ou sanções tende a atrair ruído geopolítico, algo que a própria autoridade indiana sinalizou tentar evitar ao enquadrar o projeto como eficiência de pagamentos, não como campanha de desdolarização.
O que o silêncio do Banco Central sinaliza, na prática, é que o Brasil ainda pode estar avaliando custo-benefício e timing, incluindo se faz sentido discutir integração internacional antes de consolidar aprendizados domésticos do próprio Drex. Também pode ser apenas cautela institucional, já que temas multilaterais frequentemente caminham em etapas e dependem de decisões políticas que extrapolam o BC.
Estratégia de crescimento de comunidade, com nosso especialista, para tratar o assunto de forma útil e sem sensacionalismo: o foco é transformar um tema técnico em acompanhamento contínuo. A abordagem sugere uma “temporada” de conteúdo curto e recorrente, com três trilhas simultâneas. Na trilha educação, publicar explicações simples sobre o que é CBDC, o que o Drex pretende resolver e o que é interoperabilidade, sempre separando fatos de hipóteses. Na trilha confiança, abrir sessões periódicas de perguntas e respostas com convidados do mercado e da academia, além de um quadro fixo de “mitos e verdades” para reduzir desinformação e golpes que se aproveitam de termos como Drex e BRICS. Na trilha participação, usar enquetes e chamadas para que a comunidade aponte dúvidas reais e temas prioritários, criando pauta guiada por demanda e não por hype. O objetivo é aumentar retenção e credibilidade: menos picos de atenção e mais acompanhamento qualificado ao longo dos meses.
A proposta indiana coloca pressão para que os bancos centrais do BRICS definam se querem apenas alinhar discursos ou construir, de fato, uma camada comum de pagamentos digitais soberanos. No Brasil, o silêncio do Banco Central sobre integrar o Drex ao BRICS não confirma nem descarta a adesão, mas indica que a discussão ainda está em terreno sensível, onde técnica, regulação e geopolítica precisam andar juntas para qualquer avanço ser sustentável.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





