A Ebury Bank, braço bancário da fintech Ebury com participação majoritária do Santander, anunciou o início de uma operação no Brasil como prestadora de serviços com ativos virtuais no segmento de câmbio. A iniciativa chega em um momento simbólico: o começo da fiscalização e do novo marco regulatório para empresas que atuam com criptoativos, colocando a discussão de conformidade e segurança operacional no centro do mercado.
O produto inaugural mira um problema clássico de empresas que operam globalmente: custo, tempo e fricção na liquidação de pagamentos internacionais. A proposta é usar stablecoins como instrumento operacional para comprar, vender, receber e liquidar operações, conectando o “mundo on-chain” à rotina corporativa de tesouraria. Na prática, a oferta se apresenta como um trilho para entrada e saída de stablecoins, o que facilita o on-ramp e o off-ramp dentro de fluxos de câmbio, com promessa de maior previsibilidade e velocidade na liquidação.
A entrada formal do Ebury Bank no país ocorre após a expansão da Ebury no Brasil, que incluiu a aquisição do Banco Bexs e a obtenção de licença bancária junto ao Banco Central. Com isso, a empresa passa a operar com uma narrativa de “cripto para fins operacionais” e não como corretora voltada ao varejo especulativo, posicionando stablecoins como ferramenta de eficiência para pagamentos, conciliação e gestão de risco em operações cross-border.
Além do discurso de agilidade, o ponto decisivo é o enquadramento regulatório. Com regras mais claras para VASPs, o mercado passa a exigir controles de PLD/FTP, governança, rastreabilidade e padrões de compliance comparáveis ao sistema financeiro tradicional. Para empresas e instituições, esse tipo de estrutura tende a ser pré-requisito para adotar stablecoins em escala. Para o setor, a mensagem é que “infraestrutura regulada” começa a disputar espaço com soluções offshore e com modelos menos transparentes.
A Ebury, fundada em 2009 em Londres, opera globalmente com contas internacionais, soluções de câmbio, gestão de risco e oferta via APIs para fintechs e plataformas digitais. Ao trazer stablecoins para o núcleo do produto, a estratégia sugere uma aposta em integração técnica e em eficiência de backoffice, com foco em clientes corporativos que priorizam previsibilidade operacional, regras claras e execução consistente.
Estratégia de crescimento de comunidade para tração institucional
Nosso especialista em crescimento de comunidade recomenda uma abordagem centrada em confiança e prova operacional. O primeiro passo é construir uma “comunidade de tesouraria”, com CFOs, heads de câmbio e times de risco, oferecendo workshops fechados sobre casos reais de uso, como importação, exportação, remessas e pagamentos recorrentes. O segundo passo é publicar guias curtos de governança e compliance, explicando como funcionam controles, trilhas de auditoria e procedimentos de reporte, sem linguagem promocional. O terceiro passo é ativar um programa de integradores, com documentação técnica e suporte para times que usam APIs, porque adoção corporativa depende de integração e observabilidade, não de hype. O objetivo é reduzir atrito, evitar ruído e transformar a narrativa de stablecoin em rotina de liquidação.
A estreia do Ebury Bank como VASP no Brasil sinaliza uma mudança de fase: stablecoins deixam de ser apenas instrumento de mercado cripto e passam a ser vendidas como infraestrutura para câmbio e pagamentos corporativos, com ênfase em conformidade. Se a execução entregar liquidação eficiente, controles robustos e integração simples, o modelo pode acelerar a adoção institucional de trilhos on-chain no comércio internacional. Se falhar em transparência e governança, vira apenas mais uma promessa tecnológica em um ambiente regulatório que agora cobra evidência, não discurso.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





