Um estudo da Bitfinex Securities, braço regulado da Bitfinex, afirma que a tokenização tem potencial para remodelar o mercado de capitais na América Latina e ampliar o acesso a investimentos regulados no Brasil, ao atacar gargalos históricos como custos elevados, baixa liquidez e concentração bancária. A análise, apresentada no Market Inclusion Report, descreve um ecossistema de investidores em expansão, mas ainda pouco desenvolvido, com barreiras que dificultam tanto a captação por empresas quanto a participação de investidores de menor porte.
Segundo o relatório, levantar entre US$ 30 milhões e US$ 50 milhões pode custar em média 7% em taxas, número que tende a subir com serviços de assessoria precificados em dólar. No lado da demanda, a Bitfinex destaca a baixa educação financeira formal, estimando que 68% da população latino-americana não tenha treinamento estruturado no tema, o que limita a compreensão de produtos mais sofisticados e reduz a base de investidores capazes de assumir risco de forma informada. O documento também aponta a chamada “latência de liquidez”, isto é, a dificuldade de converter ativos em dinheiro com rapidez e eficiência, o que encarece operações e diminui a atratividade do mercado para emissores e participantes.
O estudo também relaciona o problema à estrutura bancária historicamente concentrada. Antes do avanço das fintechs, a Bitfinex afirma que cinco bancos controlavam cerca de 70% das contas na região, ambiente em que tarifas elevadas chegaram a girar em torno de 17%. No Brasil, esse contexto teria contribuído para tornar processos como IPOs e captações públicas caros, lentos e burocráticos, especialmente para empresas menores.
A tese da Bitfinex é que a tokenização, ao transformar valores mobiliários em instrumentos baseados em blockchain, pode reduzir custos, acelerar prazos e ampliar liquidez ao permitir negociação global e propriedade fracionada. O relatório sugere que emissores podem acessar liquidez internacional com mais eficiência, enquanto investidores ganham alternativas com tíquetes menores e maior flexibilidade de negociação. A empresa cita que os custos de emissão poderiam cair em até 50%, para uma faixa de 2% a 4% do capital captado, além de encurtar prazos de listagem para algo entre 60 e 90 dias, dependendo do desenho e da conformidade do produto.
No recorte brasileiro, a Bitfinex aponta que o ambiente regulatório começa a abrir espaço para simplificação. Um exemplo citado é o regime FÁCIL, da CVM, descrito como um modelo voltado a reduzir entraves burocráticos e custos de conformidade para PMEs interessadas em acessar o mercado de capitais. Na leitura do relatório, esse tipo de estrutura pode funcionar como ponte entre inovação e proteção ao investidor, favorecendo instrumentos tokenizados em trilhos regulados.
Estratégia de crescimento de comunidade
Pelo olhar do nosso especialista em crescimento de comunidade, tokenização só escala quando se transforma em “produto compreensível”, não em jargão técnico. A estratégia mais eficiente é combinar educação e prova prática. Educação, com materiais simples sobre riscos, direitos do investidor, governança, custódia e diferença entre token de utilidade e security token, evitando vender a ideia como atalho para lucro. Prova prática, com casos reais no Brasil, como emissões de menor porte com custos e prazos comparáveis, transparência de dados e trilhas de conformidade claras. Para formar confiança, é decisivo construir uma rede com reguladores, escritórios jurídicos, auditorias, plataformas de custódia e comunidades de investidores, mantendo o discurso centrado em acesso, redução de fricção e padronização operacional.
O argumento da Bitfinex Securities é direto: a tokenização pode reduzir custos e prazos, ampliar liquidez e democratizar o acesso ao mercado de capitais no Brasil, especialmente para empresas que hoje ficam fora do “clube” por burocracia e preço. O desafio, no entanto, não é só tecnológico. O avanço depende de regulação funcional, infraestrutura confiável, educação financeira e um histórico de emissões bem-sucedidas que convença investidores de que a promessa de inclusão vem acompanhada de segurança e previsibilidade.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





