O Bitcoin recuou para a faixa de US$ 66.500 nesta terça-feira (3), pressionado por uma combinação de fortalecimento do dólar americano e escalada militar no Oriente Médio. A maior criptomoeda do mercado chegou a tocar US$ 70.000 na segunda-feira antes de devolver os ganhos, refletindo o clima de aversão ao risco que tomou conta dos mercados globais.
Dólar dispara e pressiona ativos de risco
O índice DXY — que mede a força do dólar frente a uma cesta de moedas — subiu 0,5% e atingiu o maior nível desde 19 de janeiro, ultrapassando os 99 pontos. A valorização do dólar é a resposta direta dos investidores à intensificação do conflito no Irã, com Israel lançando novos ataques aéreos em Teerã e Beirute e drones iranianos atingindo a embaixada dos EUA em Riad.
O petróleo WTI também disparou, subindo 5% nas últimas 24 horas para acima de US$ 74 por barril, enquanto o ouro recuou de sua máxima mensal de US$ 5.410 para US$ 5.260, com investidores preferindo a liquidez do dólar como porto seguro.
Altcoins sofrem mais que o Bitcoin
Enquanto o Bitcoin se mantém dentro de uma faixa de negociação que ocupa desde o início de fevereiro, as altcoins tiveram desempenho pior. Cardano (ADA), Zcash (ZEC) e Dash (DASH) caíram mais de 4% desde a meia-noite UTC. Tokens como PEPE, ATOM, SHIB e BCH acumulam perdas de dois dígitos na semana.
Por outro lado, o token NEAR saltou 13,3% após o lançamento da funcionalidade “Confidential Intents”, e tokens DeFi como JUP e MORPHO subiram 23% e 20% na semana, respectivamente, desafiando a tendência geral de consolidação.
ETFs de Bitcoin absorvem o choque com US$ 458 milhões em entradas
Em meio ao cenário turbulento, os ETFs spot de Bitcoin nos Estados Unidos registraram entradas de US$ 458 milhões, um dos maiores dias de fluxo positivo do trimestre. O dado sugere que investidores institucionais estão tratando a volatilidade geopolítica como um evento contido e não como uma ameaça sistêmica ao mercado.
A firma de trading QCP Capital, baseada em Cingapura, destacou que as liquidações de posições compradas de aproximadamente US$ 300 milhões no fim de semana foram “notáveis, porém contidas”, indicando que o posicionamento já havia sido significativamente reduzido nas semanas anteriores.
A volatilidade implícita de 1 dia disparou brevemente para 93% antes de recuar rapidamente, sinal de que os traders estavam protegendo risco de evento pontual e não se preparando para uma escalada prolongada, segundo a QCP Capital.
Derivativos mostram mercado cautelosamente otimista
O mercado de derivativos de Bitcoin entrou em fase de consolidação, com o open interest em futuros estabilizado em US$ 15,3 bilhões. As taxas de funding permanecem entre 0% e 10%, refletindo um sentimento cautelosamente altista no varejo. No mercado de opções, o volume de calls saltou para um split de 63/37, indicando que a maioria das apostas é de alta.
Os dados da Coinglass mostram US$ 392 milhões em liquidações nas últimas 24 horas, divididos igualmente entre posições long e short. O nível de US$ 69.800 aparece como zona de liquidação relevante no mapa de calor da Binance, caso o preço volte a subir.
O que esperar
De acordo com Fabian Dori, CIO do Sygnum Bank, a queda recente do Bitcoin é causada por um aperto de liquidez de curto prazo e não por uma quebra estrutural dos fundamentos. O sentimento está em níveis de “medo extremo”, o que deixa o mercado vulnerável a mais volatilidade — mas dados macroeconômicos em melhora, crescimento de stablecoins e adoção institucional sustentam uma perspectiva construtiva de longo prazo.
Para o investidor brasileiro, o cenário de dólar forte adiciona uma camada extra: mesmo com o Bitcoin em queda em dólar, o preço em reais pode ter variação diferente dependendo do comportamento do câmbio nos próximos dias.
Oliver Andrade é jornalista, empreendedor e uma das vozes mais ativas do ecossistema cripto brasileiro. Aos 32 anos, casado e pai, concilia a vida pessoal com uma trajetória intensa no mercado de ativos digitais que começou em 2020 — quando...





