Bitcoin e Ethereum ensaiaram recuperação nesta segunda-feira (8), após uma das semanas mais duras do mercado cripto desde 2022. O avanço, porém, veio acompanhado de uma liquidação de vendidos, enquanto ETFs, macroeconomia e unlocks de tokens ainda mantêm o risco elevado.
O Bitcoin voltou a negociar perto de US$ 63 mil nesta segunda-feira (8), enquanto o Ethereum recuperou a faixa de US$ 1.680, em um repique que trouxe alívio depois de uma queda semanal intensa. A recuperação, no entanto, ainda parece mais ligada à recomposição de posições e ao fechamento forçado de shorts do que a uma virada clara de tendência.
Segundo a Business Today, o BTC chegou à região de US$ 62.800 e o ETH subiu mais de 3% após uma semana em que Bitcoin e Ether recuaram 17% e 22%, respectivamente. A queda apagou cerca de US$ 390 bilhões do valor de mercado cripto, pressionada por saídas de ETFs, liquidações alavancadas e rotação de capital para ações ligadas à inteligência artificial.
O movimento desta manhã acontece logo depois de o mercado testar zonas consideradas críticas. Como o CriptoBR mostrou na análise sobre o Bitcoin perto de US$ 60 mil com RSI no menor nível desde 2020, parte dos indicadores já sinalizava estresse técnico. O problema é que sobrevenda não significa, sozinha, retomada sustentável.
Repique veio com squeeze de vendidos
Dados compilados pela Pluang, a partir de atualização atribuída ao CoinDesk, apontam que o Bitcoin saiu de menos de US$ 60 mil para quase US$ 63.800 no fim de semana. Esse salto causou perdas de aproximadamente US$ 504 milhões a traders posicionados na queda, no maior short squeeze diário desde abril.
No total, as liquidações no mercado cripto chegaram a US$ 655 milhões e afetaram mais de 104 mil traders, com BTC e ETH concentrando as principais posições encerradas à força. O número ajuda a explicar por que a alta foi rápida: quando vendedores alavancados são liquidados, as corretoras compram o ativo para fechar as posições, alimentando a própria recuperação.
Esse tipo de movimento pode produzir candles fortes sem necessariamente indicar nova demanda estrutural. Na prática, o mercado precisa separar duas coisas: uma recuperação gerada por fechamento de posições vendidas e uma retomada sustentada por entrada de capital spot, fluxo de ETFs ou melhora macro.
Ainda assim, o repique muda o curto prazo. Depois da liquidação bilionária que levou o Bitcoin abaixo de US$ 62 mil, a defesa da região de US$ 60 mil passou a ser o ponto mais observado por traders. Uma perda limpa dessa faixa poderia reabrir pressão; uma consolidação acima dela reduziria o risco de nova capitulação imediata.
ETFs e macro ainda limitam o apetite
O lado cauteloso da leitura vem dos fluxos institucionais. A Business Today citou saídas persistentes de fundos e expectativas de juros mais altos por mais tempo nos Estados Unidos como fatores que seguem pesando sobre ativos digitais. Em outras palavras, o mercado respirou, mas ainda não recebeu o tipo de catalisador que costuma sustentar uma virada ampla.
Essa pressão aparece também na dinâmica dos ETFs. Na semana passada, o CriptoBR destacou que os ETFs de Bitcoin e Ether tentavam encerrar uma sequência de saques, mas o saldo do período ainda mostrava uma base institucional mais defensiva. Quando esses produtos perdem entrada líquida, o Bitcoin perde uma das principais fontes de absorção de oferta do ciclo atual.
O ambiente macro adiciona outra camada. A Pluang citou volatilidade geopolítica, dados de inflação dos EUA no radar e a concorrência de grandes temas de Wall Street, como inteligência artificial e IPOs de empresas de tecnologia. Para cripto, isso significa que o capital de risco continua seletivo: rallies curtos podem acontecer, mas a confirmação depende de fluxo real.
Altcoins encaram semana de unlocks
Enquanto BTC e ETH tentam estabilizar, o mercado de altcoins ainda tem um calendário pesado pela frente. A CryptoRank destacou que a semana de 8 a 14 de junho terá desbloqueios relevantes de tokens, com HOME liberando 750 milhões de unidades, avaliadas em cerca de US$ 23,56 milhões, em 10 de junho.
O mesmo levantamento aponta WET com liberação de 256 milhões de tokens, cerca de US$ 14,53 milhões, em 9 de junho. O detalhe mais sensível é que esse volume representa mais de 111% da oferta circulante informada, o que pode ampliar a volatilidade se parte dos novos tokens for vendida no mercado.
ME, LINEA, APT e CHEEL também aparecem no calendário, com impactos potenciais diferentes conforme o tamanho do unlock em relação à oferta circulante. Para traders, isso importa porque momentos de recuperação do Bitcoin costumam abrir espaço para rotação em altcoins, mas unlocks grandes podem interromper esse fluxo com pressão adicional de oferta.
O quadro geral, portanto, é de alívio com ressalvas. O Bitcoin recuperou uma área psicológica importante, os vendidos foram punidos e o Ethereum acompanhou o movimento. Mas, sem melhora consistente nos fluxos de ETFs e com novos eventos de oferta em altcoins, o mercado ainda precisa provar que o repique é mais do que uma correção técnica dentro de uma tendência frágil.
Mauro Andrade cobre cripto internacional, geopolítica digital e mercado global no CriptoBR. Acompanha movimentos regulatórios nos EUA, Europa e Ásia, adoção institucional por grandes players (BlackRock, Fidelity, JPMorgan) e o impacto geopolítico das criptomoedas no cenário financeiro mundial.





