O FundBank rebatizou sua operação institucional como IRACE Digital e fechou uma parceria com o Tenet Bank, das Ilhas Cayman. O movimento mira custódia, liquidez, execução e infraestrutura para clientes que operam entre finanças tradicionais, stablecoins e ativos digitais.
O FundBank Group anunciou nesta segunda-feira (29) o rebrand de suas operações globais para IRACE Digital, em uma tentativa de transformar um banco voltado a gestores de ativos em uma plataforma regulada para finanças tradicionais e cripto. A mudança vem acompanhada de uma parceria estratégica com o Tenet Bank, instituição das Ilhas Cayman com foco em fintechs, clientes Web3 e infraestrutura bancária para ativos digitais.
Segundo o comunicado divulgado pela companhia e reportado pelo CoinDesk, a IRACE pretende ampliar sua atuação em custódia de ativos digitais, gestão de liquidez e infraestrutura de execução, além dos serviços bancários tradicionais que já oferecia a fundos e gestores institucionais. O ponto central é reduzir a dependência de múltiplos provedores separados para banking, pagamentos, custódia e trading.
Banco quer virar ponte entre fiat, stablecoins e cripto
A IRACE afirma que clientes institucionais ainda precisam montar uma espécie de mosaico operacional para lidar com dinheiro fiduciário, stablecoins, ativos tokenizados e execução de ordens. Na prática, isso cria mais etapas de compliance, mais integrações técnicas e mais risco operacional.
A proposta da nova marca é concentrar esses serviços em uma estrutura regulada com presença nos Estados Unidos, na Europa e nas Ilhas Cayman. A empresa também disse que busca aprovações adicionais relacionadas a ativos digitais em diferentes jurisdições, um detalhe relevante em um momento em que bancos e gestores tentam entrar em cripto sem abrir mão de governança e supervisão.
O movimento conversa com uma tendência mais ampla do mercado: a aproximação entre infraestrutura bancária e ativos on-chain. O CriptoBR mostrou recentemente que a BlackRock levou o USDe da Ethena ao Aladdin, reforçando como produtos baseados em stablecoins começam a aparecer em plataformas usadas por investidores profissionais.
Ex-Zodia assume comando global
A IRACE também nomeou John Cronin, ex-CEO da Zodia Custody Ireland, como CEO global. Outros antigos executivos da Zodia, incluindo Jo Lee, Niamh Byrne e Jennifer Fisher, também se juntaram ao grupo em cargos de liderança.
O recado é claro: a companhia quer competir no pedaço institucional da cripto, onde custódia, liquidez, banking e execução precisam funcionar com padrões próximos aos do mercado financeiro tradicional. Esse é o mesmo segmento que vem atraindo bancos, custodiante globais e plataformas reguladas, especialmente depois do avanço dos ETFs, das stablecoins e dos fundos tokenizados.
O tema também ganha força porque reguladores seguem olhando para stablecoins como instrumentos financeiros que podem carregar riscos cambiais e de liquidez. Como o CriptoBR publicou, o BIS alertou que stablecoins se parecem mais com ETFs do que com dinheiro tradicional, uma leitura que ajuda a explicar por que players institucionais buscam estruturas mais integradas e fiscalizadas.
Tokenização amplia a disputa por infraestrutura
A entrada da IRACE nesse mercado não acontece isoladamente. Bancos, fintechs e custodians estão tentando capturar a camada de infraestrutura que liga dinheiro tradicional, ativos tokenizados e blockchain. Essa disputa inclui custódia, liquidação, pagamentos, compliance e acesso a liquidez.
Para gestores de fundos, a promessa é simplificar a operação. Em vez de usar um banco para fiat, outro parceiro para custódia cripto, uma mesa separada para execução e ferramentas próprias para reconciliação, a IRACE quer oferecer um ambiente único. Se conseguir executar essa tese, a empresa pode se beneficiar do crescimento de stablecoins, fundos tokenizados e produtos híbridos.
O desafio está no outro lado da moeda: operar em várias jurisdições aumenta a complexidade regulatória. Nos EUA e na Europa, bancos com exposição a cripto precisam lidar com exigências de capital, controles contra lavagem de dinheiro, segregação de ativos e regras ainda em evolução. O avanço da tokenização, como visto na iniciativa da DTCC para levar ativos de Wall Street à Stellar, mostra que a demanda existe, mas a execução depende de confiança e supervisão.
Para o investidor de varejo, a notícia não muda preços no curto prazo. Mas ela reforça uma mudança estrutural: a cripto institucional está deixando de ser apenas compra de Bitcoin ou Ethereum e passando a incluir a infraestrutura que permite bancos, gestores e emissores operarem com ativos digitais de forma mais parecida com o mercado financeiro tradicional.
Hillary Gonçalves cobre regulação cripto no Brasil, movimentações institucionais e adoção de stablecoins em real. Editora no CriptoBR desde 2026, acompanha o impacto das decisões do Banco Central e da CVM no mercado digital brasileiro.





